Em seus contos, Lima Barreto chama carne de carniça e açougueiro de carniceiro. Exemplos disso estão nas histórias “Manel Capineiro” e “O Número da Sepultura”.
O uso dos termos não surge para ser interpretado como ofensa, mas como constatação da realidade, já que em seu tempo a carne resultante do abate de animais não raramente era citada como carniça, e quem dela obtinha lucro era chamado de carniceiro – como é o caso do personagem Antônio do Açougue.
O termo carniça e o termo carniceiro remetem ao corpo morto de uma forma que falar somente carne ou açougueiro não o fazem; porque não se dissocia a carniça da morte, mas é possível fazê-lo, pelo hábito, em relação à carne, mesmo que impossível sem a concretização da morte.
Hoje, se carne é citada como carniça e se quem obtém lucro a partir da carne é chamado de carniceiro, logo, os termos são tomados como ofensivos, como se não reproduzissem realidade e sim exagero ou, por contradição, dissimulação.
No entanto, se mesmo hoje os dicionários, como o Michaelis, também trazem a referência à carne resultante do abate de animais como carniça, o incômodo existe por sua associação mais direta com a morte, com um corpo morto ou um corpo em estado de putrefação.
Mas a carniça é também o corpo em não estado de putrefação – a carniça não é apenas, como do uso comum, um corpo não humano encontrado no asfalto ou jogado em algum lugar. Sendo animal, o próprio ser humano pode ter seu corpo morto chamado de carniça.
O termo caniça incomoda porque impede a dissimulação comum do termo carne. Ademais, vários dicionários trazem também o termo carniça em relação com matança ou carnificina.
Enfim, se o termo carniça é impossível de ser pensado como sinonímia de carne é porque afastamos, por conveniência, de pensar o primeiro na sua relação com a morte.
Logo, se Lima Barreto gera estranhamento hoje por ter chamado carne de carniça e açougueiro de carniceiro é porque ele não afastou a morte da relação que o ser humano estabelece com a carne na sua cotidianidade de consumo.
Clique aqui e leia mais publicações relacionadas à literatura.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…