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Há sempre animais amontoados a caminho do matadouro

Há sempre animais amontoados a caminho do matadouro. Uma troca de calor que não é intencional, mas condicional. Um bovino mantém a cabeça pressionada contra outro corpo bovino. Suas narinas miram o teto e seus olhos miram minha atenção. Ou seria minha intenção?

Imagino o que significa seu olhar, e minha percepção vagueia por possibilidades, incertezas, inferências. O que é sobre ele e o que é sobre mim nessa troca de olhares? Não posso falar em dubiedade. Não há nada de dúbio nessa estranha condição de ser enviado para ser diminuído.

Só consigo pensar em diminuição, nessa contradição de crescer para decrescer. Observo esse corpo grande e vivo, sua pelagem vistosa, a mancha amarronzada no entorno dos olhos, que parece existir para destacar-lhe os olhos atentos e escuros.

É um corpo que existe para ser reduzido, criado para a destruição, como unidade de um processo contínuo de indistinção. Toda a sua forma que observo desaparece e vira algo sem ligação com expressão, olhar, experiências. Quem pensará na cor do pelo? Nas três pintinhas pretas no corpo marrom com rajadas brancas?

Já não é mais carregado por um caminhão, e sim por mãos que transportam corpos em sacolas, e vão por destinos diferentes, por sujeitos diferentes. Na mesma sacola, um corpo encontra outros corpos. Os pedaços não trazem histórias, embora feitos de sujeitos, logo de histórias.

Há etiquetas, preços, pesos e validades. A identificação do sujeito é reduzida a um corte, seu nome é um corte, genérico, comestível.

Jornalista (MTB: 10612/PR) e mestre em Estudos Culturais (UFMS).

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