James Rachels: comer carne é estímulo à crueldade

“Os fatos sobre a produção de carne são mais perturbadores do que quaisquer fatos sobre a experimentação animal”

“De fato, animais de fazendas vivem em condições repugnantes antes de serem levados para o matadouro” (Fotos: Reprodução)

Em 1970, o psicólogo britânico Richard D. Ryder cunhou o termo “especismo” para se referir à ideia de que os interesses dos animais contam menos do que os interesses humanos. Os utilitaristas acreditam que o especismo é discriminação contra outras espécies, tanto como racismo é discriminação contra outras raças. Ryder se admira como nós poderíamos possivelmente justificar a permissão de experimentos como estes:

• Em Maryland, em 1996, os cientistas usaram cachorros beagle para estudar choque céptico. Eles fizeram buracos nas gargantas dos cachorros e colocaram coágulos infectados com E. coli dentro de seus estômagos. Em três semanas, a maioria dos cachorros morreu.

• Em Taiwan, em 1997, cientistas jogaram pesos nas espinhas dos ratos para estudar danos na coluna. Os pesquisadores descobriram que danos maiores foram causados pela queda dos pesos de alturas maiores.

• Desde 1990, chimpanzés, macacos, cachorros, gatos e roedores têm sido usados para estudar alcoolismo. Depois de viciarem os animais em álcool, os cientistas observaram sintomas como vômito, tremor, ansiedade e apreensão. Quando os animais ficam abstêmios, os cientistas induziram convulsões levantando-os por seus rabos, dando choques elétricos e injetando químicos em seus cérebros.

Mas criticar experimentos animais é muito fácil para a maioria de nós. Nós podemos nos sentir sobranceiros ou superiores porque não fazemos tais pesquisas. Porém, todos nós estamos envolvidos com a crueldade quando comemos carne. Os fatos sobre a produção de carne são mais perturbadores do que quaisquer fatos sobre a experimentação animal.

Muitas pessoas acreditam, de uma maneira vaga, que matadouros são desagradáveis, mas que animais criados para comer são, ao contrário, tratados humanamente. De fato, animais de fazendas vivem em condições repugnantes antes de serem levados para o matadouro.

Vitelos, por exemplo, passam 24 horas por dia em redis tão pequenos que eles não podem se virar, deitar confortavelmente ou mesmo torcer as suas cabeças para espantar parasitas. Os produtores os põem em pequenos redis para economizar dinheiro e deixar a sua carne macia.

Os bezerros sentem falta de suas mães e, como as crianças humanas, querem alguma coisa para sugar, assim, tentam em vão sugar os cantos das madeiras de seus estábulos. São, também, alimentados com uma dieta deficiente em ferro e forragem, a fim de manter a sua carne descorada e saborosa. A sua ânsia por ferro se torna tão forte que eles lamberiam a sua própria urina, se eles pudessem se virar – o que normalmente eles nunca poderão fazer.

Sem forragem, os bezerros não podem formar o bolo alimentar para ruminar. Por essa razão, eles não podem receber uma cama de palha, porque eles a comeriam, na tentativa de consumir forragem. Desse modo, para esses animais, o matadouro não é um fim desagradável para uma existência satisfeita.

O vitelo é somente um exemplo. Galinhas, perus, porcos e bovinos adultos vivem todos em condições horríveis, antes de serem abatidos. O argumento utilitarista nessas questões é simples. O sistema de produção de carne causa sofrimento enorme para os animais sem benefícios compensadores. Portanto, devemos abandonar esse sistema.

O que é mais revolucionário em tudo isso é simplesmente a ideia de que os interesses dos animais não humanos contam. Nós normalmente assumimos que somente os seres humanos são merecedores de consideração moral.

Os seres humanos são especiais de muitos modos. Uma moralidade adequada tem que reconhecer isso. Mas não somos os únicos animais deste planeta, e uma moralidade adequada também tem que reconhecer este fato.

James Rachels em “Os Elementos da Filosofia Moral”, lançado originalmente em 1986 e mais tarde lançado no Brasil pela Mc Graw Hill (a última edição é de 2013). No livro, entre outros assuntos, o filósofo James Rachels (1941-2003) faz uma análise, referenciada pelo utilitarismo, dos conflitos desencadeados sob um viés ético e um imperativo moral do papel dos animais na sociedade humana.

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