Pesquisar
Close this search box.

Mais um estudo relaciona consumo de carne a risco de problemas de saúde

Químicos produzidos no trato digestivo por micróbios intestinais após a ingestão de carne podem ajudar a explicar parte do maior risco de doença cardiovascular associado ao consumo de carne vermelha, de acordo com um estudo publicado neste mês de agosto pela Associação Americana do Coração (American Heart Association) na revista Aterosclerose, Trombose e Biologia Vascular (ATVB).

Em muitos países as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte. Enquanto o risco de desenvolver doenças cardiovasculares, incluindo ataque cardíaco e acidente vascular cerebral, aumenta com a idade, outros fatores de risco são influenciados pelo estilo de vida.

Estilo de vida e comportamentos que são conhecidos por melhorar a saúde cardiovascular incluem, segundo a publicação, consumir alimentos saudáveis, principalmente vegetais; atividade física regular, dormir bem, manter um peso corporal saudável, parar de fumar e controlar a pressão, colesterol e o açúcar no sangue.

“A maior parte do foco na ingestão de carne vermelha e seu impacto na saúde tem sido em torno dos níveis de gordura saturada e colesterol no sangue”, diz a coautora do estudo Meng Wang, pós-doutoranda na Friedman School of Nutrition Science and Policy, da Universidade Tufts, de Massachusetts.

“Com base em nossas descobertas, novas intervenções podem ser úteis para direcionar as interações entre a carne vermelha e o microbioma intestinal e assim nos ajudar a encontrar maneiras de reduzir o risco cardiovascular”.

Pesquisas anteriores descobriram que certos metabólitos estão associados a um maior risco de doenças cardiovasculares. Um desses metabólitos é o TMAO, ou N-óxido de trimetilamina, que é produzido pelas bactérias intestinais para digerir a carne vermelha que contém grandes quantidades da substância química L-carnitina.

Altos níveis sanguíneos de TMAO em humanos podem estar associados a maiores riscos de doenças cardiovasculares, doença renal crônica e diabetes tipo 2. No entanto, ainda não se sabe se o TMAO e metabólitos relacionados derivados da L-carnitina podem ajudar a explicar os efeitos da ingestão de carne vermelha no risco cardiovascular e até que ponto podem contribuir para o risco cardiovascular associado ao consumo de carne.

Para entender essas questões, os pesquisadores que conduziram o estudo mediram os níveis dos metabólitos em amostras de sangue. Eles também examinaram se o açúcar no sangue, inflamação, pressão arterial e colesterol podem explicar o risco cardiovascular elevado associado ao consumo de carne vermelha.

Os participantes do estudo são cerca de 4 mil dos 5.888 adultos inicialmente recrutados de 1989 a 1990 para o Cardiovascular Health Study (CHS). Os participantes selecionados para o presente estudo estavam livres de doença cardiovascular clínica no momento da inscrição no CHS, um estudo observacional de fatores de risco para doença cardiovascular em adultos com 65 anos ou mais.

O CHS segue 5.888 participantes recrutados em quatro comunidades: Sacramento, Califórnia; Hagerstown, Maryland; Winston-Salem, Carolina do Norte; e Pittsburgh, Pensilvânia. A idade média dos participantes no momento da inscrição foi de 73 anos, quase dois terços dos participantes eram do sexo feminino e 88% dos participantes se identificaram como brancos.

O tempo médio de acompanhamento dos participantes foi de 12,5 anos e até 26 anos em alguns casos. Na consulta de acompanhamento foram avaliados o histórico médico dos participantes, estilo de vida, condições de saúde e características sociodemográficas – como renda familiar, escolaridade e idade.

Vários biomarcadores sanguíneos foram medidos no início do estudo e novamente em 1996-1997. As amostras de sangue em jejum armazenadas congeladas a -80 ˚C foram testadas quanto aos níveis de vários microbiomas intestinais ligados ao consumo de carne vermelha, incluindo TMAO, gama-butirobetaína e crotonobetaína.

Além disso, todos os participantes do estudo responderam a dois questionários de frequência alimentar validados sobre seus hábitos alimentares habituais, incluindo ingestão de carne vermelha, carne processada, peixe, aves e ovos, no início do estudo e novamente de 1995 a 1996. Para o primeiro questionário , os participantes indicaram com que frequência, em média, nos últimos 12 meses, eles comeram determinadas quantidades de vários alimentos, variando de “nunca” a “quase todos os dias ou pelo menos cinco vezes por semana”, com base em porções médias, que variaram com base na fonte alimentar. O segundo questionário usou uma frequência de dez categorias de ingestão média nos últimos 12 meses, variando de “nunca ou menos de uma vez por mês” a “seis ou mais porções por dia”, com tamanhos de porção padrão definidos.

Para as análises atuais, os pesquisadores compararam o risco de doença cardiovascular entre os participantes que ingeriram diferentes quantidades de alimentos de origem animal (ou seja, carne vermelha, carne processada, peixe, frango e ovos). Eles descobriram que comer mais carne, especialmente carne vermelha e carne processada, estava associado a um risco maior de doença cardiovascular aterosclerótica – um risco 22% maior para cada 1,1 porção por dia.

Segundo os autores, o aumento de TMAO e metabólitos relacionados encontrados no sangue explicou cerca de um décimo desse risco elevado. Eles também observaram que o açúcar no sangue e as vias gerais de inflamação podem ajudar a explicar as ligações entre a ingestão de carne vermelha e as doenças cardiovasculares. O açúcar no sangue e a inflamação também parecem ser mais importantes na ligação da ingestão de carne vermelha e doenças cardiovasculares do que as vias relacionadas ao colesterol no sangue ou à pressão arterial.

“Esforços de pesquisa são necessários para entender melhor os potenciais efeitos à saúde da L-carnitina e outras substâncias na carne vermelha, como o ferro heme, que tem sido associado ao diabetes tipo 2, em vez de se concentrar apenas na gordura saturada”, frisa Wang.

O estudo foi observacional, o que significa que não pode controlar todos os fatores de risco para doenças cardiovasculares e pode não provar causa e efeito entre o consumo de carne e doenças cardiovasculares ou sua mediação por produtos químicos gerados por micróbios intestinais. Além disso, o consumo alimentar foi autorreferido, de modo que erros no relato foram possíveis. E, como a maioria dos participantes do estudo eram homens e mulheres brancos mais velhos nos Estados Unidos, as descobertas podem não se aplicar a populações mais jovens ou com maior diversidade racial.

Os estudos publicados nas revistas científicas da American Heart Association são revisados por pares.

Clique aqui para ter acesso ao estudo.

Jornalista (MTB: 10612/PR) e mestre em Estudos Culturais (UFMS).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *