No corredor

"Fico pensando comigo mesmo como é interessante o fim de ciclos em nossas vidas,como nos causam ansiedade"

Foto: Getty

Por Luana S.S.

Caminho lentamente pelo corredor, seguido por mais alguns colegas. Sim,
permanecemos calmos apesar da euforia interna que nos domina, pois finalmente poderemos seguir pelo corredor e já sentimos o cheiro da liberdade que nos aguarda através da última porta.

Fico pensando comigo mesmo como é interessante o fim de ciclos em nossas vidas,
como nos causam ansiedade. Talvez seja normal, por isso minhas pernas tremem à cada passo que dou e o frio na barriga não deve ter outro motivo se não este também. Como devem estar as coisas lá fora?

Afinal, o único contato que tenho tido com o lado de lá é através do ar puro que trago com força quando estamos na parte aberta, que adentra por meus pulmões e se espalha por todo o meu corpo, trazendo os aromas de outros lugares além das cercas que me aprisionam há tanto tempo, mas só por mais alguns instantes.

Já estive do lado de lá, e recordo com cada centímetro de meu ser a alegria do contato
com o resto do mundo. Aconteceu quando fui transferido, e a sensação de saber que o mundo não termina em uma cerca é extremamente fascinante. A única intenção inicial é absorver tudo o quanto for possível de toda a informação que chega aos seus olhos através das janelas do transporte e, como vim de muito longe e a viagem durou dias, eu pude apreciar desde o raiar do sol até o anoitecer.

Apreciei a natureza linda e pura como também as luzes artificiais das cidades e seus sons, às vezes perturbadores, mas que indicavam a vida que ali acontecia. Muitas vezes cheguei a me questionar se não teria sido melhor não ter tido essa experiência e apenas ter ficado no meu local de origem caso pudesse fazer essa escolha, pois a depressão vem, e você sente a impotência, a limitação, as memórias a lhe ensurdecer com os sussurros de tudo o que você não pode ter.

É como você pensar em ser desprovido da visão, ou da audição. Você preferiria já ter visto ou ouvido o mundo afim de que lhe lembre o que você não tem mais, ou ter nascido desta forma para então não poder sentir saudade do que nunca teve e apenas imaginar? Pois este foi meu grande dilema nos últimos anos, pelo menos até agora.

Não fomos avisados com antecedência de que hoje seria o dia que atravessaríamos o
corredor. Todos sabíamos que este dia chegaria e essa espera é que motiva muitos de nós, mas nem todos. Alguns de meus companheiros, devido ao tempo incontável de espera, ficam desprovidos de fé, e esta é fundamental para mantermos a razão, a sua carência abre portas para a ansiedade descontrolada, que é capaz de enlouquecer até os mais fortes do grupo.

Afirmo isso por testemunhar alguns casos, mas que prefiro não recordar agora, pois este é um momento de celebração. A dúvida que me atormenta agora é o que vou fazer do lado de lá da cerca? Não tenho familiares a me esperar, pois a maioria destes seguiu o mesmo caminho que o meu, mas sem a mesma sorte de ter um corredor para a liberdade como este em que sigo agora. E amigos, só tenho os que fiz aqui, e acreditem, são os melhores e para sempre habitarão em meu coração.

O 307, que depois da transferência passou a ser o 1.801, é meu primeiro e melhor amigo.
Lembro de quando nos conhecemos, ainda na infância, no cárcere anterior. É isso mesmo, esse é o motivo da minha ansiedade em passar pelo corredor da liberdade, eu já nasci atrás das grades. Minha mãe me trouxe ao mundo quando estava encarcerada, e me criou ali, por pouco tempo, pois era uma prisão exclusiva para o sexo feminino.

Acredito eu que aquela era uma prisão de alta segurança para as que cometeram crimes mais do que bárbaros. Minha mãe nunca me contou qual foi seu crime, talvez por eu ser ainda muito novo quando nos separaram, mas não importa para quem eu perguntasse, aparentemente nenhuma delas havia cometido crime algum.

Deduzo que os crimes cometidos pelas encarceradas fossem os piores possíveis devido
ao tratamento que recebiam no local, bem diferente do tratamento que recebemos aqui, pois a comida é de alta qualidade, o atendimento médico e cuidados com nossa saúde são incríveis, mas as cercas… ah as cercas! Nenhum zelo com nossas vidas compensa a existências destas.

Mas não posso reclamar, pois as poucas lembranças que tenho de minha mãe e suas
companheiras de cela me atormentam até hoje. Lembro-me delas sendo torturadas com
aparelhos presos a elas por horas durante o dia, banhos, quando tinham, eram com mangueiras de alta pressão, e o pior, eram constantemente violentadas sexualmente pelos funcionários do local, não somente por homens, mas inclusive por mulheres.

Nunca entendi como uma mulher poderia fazer isso, pareciam que estavam cegas, hipnotizadas a ponto de não sobrar uma gota da água divina da empatia em seus corações. Fiscalização? Tinha sim, mas achavam todas essas atrocidades parte da rotina normal. E o que mais aterrorizava as detentas era o fato de saberem que na planta desta prisão não foi incluído um corredor igual a este em que me encontro agora.

Com certeza hoje minha mãe não está mais neste mundo. Ela sempre me dizia para ser
corajoso e nunca revidar caso fosse maltratado, pois tinha a certeza dentro dela de que já
tínhamos passado por este mundo outras vezes e tornaríamos a passar, e cada vez com uma vida diferente, às vezes melhor, às vezes pior dependendo de como trilhássemos nosso caminho.

E ela chorou quando nos separaram durante vários dias sem que deixassem que ela me
alimentasse. Lembro de também ter chorado muito com a separação, afinal, qual criança não chora ao ser separada de sua mãe? E qual adulto não tem sonhos terríveis do lugar onde sua mãe ficou? Foi então que fui transferido e, no transporte, conheci o 1.801 que estava tão aterrorizado quanto eu. Nossas histórias eram semelhantes, mães que erraram e que estavam pagando por seus erros, e nós, filhos sozinhos no mundo, à espera do corredor.

Nossas vidas se entrelaçaram de tal forma que não nos sentimos mais sozinhos, nossa amizade nos deu o suporte necessário para crescermos juntos para nossa liberdade.
E agora estamos eu e o 1.801 no corredor, e eu não poderia querer mais nada nesta vida
do que a alegria de podermos continuar nossa jornada juntos do lado de lá.

Ele está tão ou mais empolgado do que eu e inclusive cortou agora mesmo a minha frente na fila, e eu não ouso reclamar, afinal é o dia mais esperado de toda a nossa vida e ele deve estar faminto, pois não nos deram alimentos nas últimas horas, acredito que deve ser para ninguém botar nada pra fora no caminho, pois realmente é um momento muito emocionante.

Ao final do corredor a porta da liberdade se abre, e veja minha surpresa, ela não dá
exatamente para o lado de fora, ela dá em outra sala, veja só, por essa eu não esperava. Estamos agora os dez sortudos dentro da sala, ela é fria, as paredes são cinzentas e o cheiro é horrível.

Minhas pernas voltam a tremer descontroladamente, as batidas de meu coração aceleram a
ponto de eu imaginar que todos ao redor estavam conseguindo ouvir. Olho para o 1.801 e ele parece estar tão nervoso quanto eu, seus olhos estão arregalados e sua mandíbula tensa. Então chega um dos funcionários do cárcere e nos encaminha por outro corredor estreito, mas já não sei se quero continuar, sinto que algo não está certo, será que erraram o caminho?

Começamos a nos agitar, e somos obrigados a seguir pelo corredor estreito. Meu amigo na frente, eu em segundo e os demais logo atrás de mim, em uma fila indiana que não quer seguir por vontade própria. Mais à frente vejo o funcionário apontar uma pistola na testa do meu amigo, que não percebeu até o encostarem, pois estava com o horror em seus olhos me fitando.

Eu grito, mas já é tarde, a pistola é acionada e meu amigo perde a consciência, mas não vejo sangue, nem perfuração em seu crânio, apenas visualizo seu corpo inerte sendo transportado por uma esteira que eu não tinha notado até aquele momento.

Um gancho ergue meu querido amigo ainda inconsciente, outro funcionário se
aproxima e vejo algo brilhar, uma lâmina, e agora sim vejo seu sangue. Estou tão aterrorizado com a cena que não percebo a pistola em minha testa, olho uma última vez para o funcionário, uma lágrima corre pelo meu rosto, não percebo nenhum traço de incomodo nas feições dele, apenas fecho os olhos e corro para a possível liberdade em uma próxima vida.

Conto de autoria de Luana S.S. Segundo a autora, a escrita é um meio de externar suas convicções e despertar no outro um olhar mais crítico e empata para questões controversas que ainda são aceitas pelo senso comum.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here