A imagem do nascimento de um animal criado para consumo pode evocar um número indefinido de representações, e multiplica-se se perto dele há alguém que não “sobreviveu”. Sobre isso, é questionável quem teve pior “destino”?
Uma pessoa que compartilha perspectivas que reforçam o excepcionalismo ou supremacismo humano pode sentir-se mal pelo animal morto, mas feliz por aquele “que não morreu” – ainda que numa impercepção de antinomia, de contradição, e crença na ilusão dos “efeitos menores”.
Esse tipo de crença, a partir da qual visualiza-se o momento e ignora o posterior, pode levar a uma ideia de que estamos diante de animais com fins distintos.
Porém, não são duas mortes antecipadas? Ainda que haja um corpo caído e um corpo que se move sobre quatro patas. Afinal, a distância entre os dois é menor que duas estações.
O primeiro não terá todas as experiências do segundo, mas o segundo terá mais experiências do que o primeiro. Se essas experiências são sobre a impositiva substanciação para o fim, quem terá experimentado o pior?
Entre o lamento pelo primeiro e a atribuição de “sobrevivente” ao segundo, o que persevera é o efeito de comum dissimulação, em que “a morte do outro não deve ocorrer fora dos limites do interesse de querê-lo morto”.
Posso chamar de empatia o que sinto pelo animal que não viveu o suficiente para estar no meu prato? E o que permitiu aquele fim não planejado, mas que não pode ser definido como inesperado?
Essa e outras realidades classificadas como “eventualidades” são “corolários do consumo”, suas consequências impercebidas como trânsito de violências cotidianas, porque o corpo caído que vemos é também o corpo que não vemos.
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