Categorias: Opinião

Pior do que ver o sofrimento animal é vivê-lo

Foto: Tommaso Ausili

Por mais impactantes que sejam as imagens sobre a exploração, sofrimento e morte dos animais subjugados pelo sistema alimentar ou outra finalidade desnecessária à qual atribui-se algum tipo de apreço arbitrário, julgo importante entender que essas imagens são representações da realidade, não têm o poder de nos permitir experienciar o que eles veem ou como veem e sentem.

Somos receptores das testemunhas. E como são recortes, registros como fragmentos, há sempre um vazio que podemos preencher a partir de um exercício de reconhecimento – sobre as possibilidades e impossibilidades que envolvem esse sofrimento, e que incluem seus personagens, cenário e contexto, o antes e o depois.

Mesmo com o que reconhecemos como óbvio, há incômodo também gerado pelas incertezas, dúvidas e silêncios. Afinal, nada ouvimos, a não ser dentro de nossa consciência, quando nela algo aloja-se, e há uma não materialização que é desconfortável, como a precedência, que indica ou antecipa uma tragédia.

Se vejo uma imagem de um animal sofrendo, isso pode ter impacto sobre mim e levar-me a uma ideia e consideração sobre seu momento, sua dor, entretanto, vejo-me incapaz de entender, de forma equipável, a profundidade dessa experiência. Seria impossível, reconheço, e também porque não é apenas sobre espécie, mas também sobre individualidade.

Porém, mesmo na superfície ou na margem da realidade, posso perceber o que é concreto e irrefutável – porque a dor é uma experiência honesta refletida pela capacidade imanente de sentir, e quando expressada por quem, em relação a essa dor, não é capaz de dissimulá-la, razão alguma eu teria para contestá-la.

Não posso ensinar um animal a sofrer, a sentir medo ou horror. Mas como seres humanos, podemos estimulá-los a expressá-los sempre que os colocamos em situação de desagrado, de recusa, de não consentimento – que é o que fazemos por meio de práticas de exploração animal.

Reconhecemos isso tendo como referência nossas próprias expressões e reações diante de experiências que depreciamos – sejam evitáveis ou inevitáveis. E isso explica também porque aqueles em quem reconhecemos mais similaridades tendem a subir mais rápido na frágil escala de consideração.

Em relação a impactos, somos muito visuais, e há uma tendência à resistência a aspectos variantes de abstração pela percepção de uma exigência de reconhecimento que demande mais do que queremos ou estamos dispostos a oferecer.

Admito que sou impactado por imagens que envolvem o sofrimento de animais tão explorados e ainda vistos como pouco dignos de consideração pelas sociedades humanas. Mas o que é também essa experiência perto da realidade de vivê-la? Conheço as representações dessa realidade, as construções que faço dela no meu ideário, contudo, não a vivo e dela não sou vítima.

Seria pretensioso eu dizer que “sinto seu sofrimento”. Posso ter ideias desse sofrimento, sentir-me chocado com o que vejo – o que não garante-me o direito de dizer que o meu terror de ver um animal nessa situação é como o dele de senti-lo. Posso transitar por inferências sobre a dimensão desse sofrimento, mas não ir além. Isso é muito mais incômodo do que sabê-lo numa pretensão.

Ademais, numa percepção de alteridade e subalternidade, o outro, que não é humano, não é ouvido, não importando os sons que emita. Ainda assim, isso não impede que exista um grito no silêncio, que não seja um grito vocal. Mas que tipo de grito esse silêncio transmite? As mensagens variam e oscilam, crescem ou desaparecem, trazem mais ou menos significados, talvez nenhum ou talvez algum como nenhum – se nada incita em nós, por exemplo.

Imagens de sofrimento de animais não são incômodas para mim. Mais incômodo seria se essas imagens não existissem, porque isso significaria que o sofrimento dos animais é tão banal que não há razão para registrá-lo, externalizá-lo com um viés não dominante. Encontramos maneiras diversas para representação imagética dessa experiência não humana e, sendo documentalmente viscerais ou líricas, se têm a capacidade de mobilizar alguém, não sendo um perpétuo da indiferença, é isso que importa.

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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