Opinião

Quantos animais morreram em Brumadinho?

As pessoas estão acostumadas a não ver importância no que não é humano, e a Vale deveria agradecer por isso (Foto: Flávio Tavares/Hoje em Dia/Futura Press)

Talvez para a Vale um alívio seja o fato de que jamais saberemos realmente quantas vidas foram ceifadas em consequência do rompimento da barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho, Minas Gerais, na sexta-feira. Só a área atingida pela lama equivale a 300 campos de futebol. As estimativas de mortes de pessoas estão sendo atualizadas diariamente, mas as de animais jamais serão. Não há qualquer possibilidade de nos aproximarmos de um número real de vítimas. Vertebrados, invertebrados, animais que vivem na terra, na água.

Talvez a Vale, que já comprometeu a mata atlântica da região e impactou na vida selvagem, tenha contribuído para aproximar alguma ou algumas pequenas espécies do risco de extinção, espécies que normalmente passam despercebidas pela desatenção humana. Mas é apenas uma reflexão. Afinal, nunca saberemos. E isso é benéfico para a mineradora, principalmente porque vivemos em uma sociedade em que a vida não humana é subvalorizada.

As pessoas estão acostumadas a não ver importância no que não é humano, e a Vale deveria agradecer por isso. O retrato desse crime ambiental, e suas consequências para os animais, e que chega à população, é baseado em imagens de alguns cães e gatos enlameados sendo resgatados; de alguns bovinos atolados. E quando alguém diz que naquela situação não há muito a ser feito, muita gente não vê problema em sacrificar “alguns animais”. Estão tão anestesiados por considerarem bois e vacas como fontes de alimentos que executá-los não parece algo a se lamentar.

Honestamente, se eu estivesse atolado, impossibilitado de sair de um local por minhas próprias forças, e de repente alguém dissesse que, porque quebrei algumas costelas ou as pernas, talvez o melhor a se fazer seja me matar, eu seria tomado por desespero inenarrável. Dizem que alguns animais são pesados demais e nessa situação o “melhor é sacrificar”. Isso me preocupa, porque fico imaginando se fosse eu naquela situação e de repente alguém dissesse que dependendo do meu peso pode ser que eu deva ser abatido, “porque o resgate seria impossível” ou “não haveria recursos o suficiente” para tal tarefa.

Não consigo ignorar que a objetificação dos animais é vantajosa para a Vale porque reduz responsabilidades; até porque sua reação é baseada na comoção. Não creio que a mineradora será cobrada legalmente pela morte de tantos animais que jamais quantificaremos. Milhares? Não saberemos. No Brasil é provável que a Vale não seja responsabilizada nem mesmo por crime ambiental. E daqui a algum tempo, quando as pessoas começarem a esquecer das vítimas humanas, menos ainda se lembrarão das não humanas.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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