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Quão relativa pode ser a empatia?

Um olhar para a crueldade animal a partir do filme “Corpo Celeste”

No filme italiano “Corpo Celeste”, de Alice Rohrwacher, uma professora de catequese, como parte dos ensinamentos cristãos, aborda com seus alunos a empatia e a compaixão.

Depois, quando se depara com uma de suas alunas acariciando uma ninhada de gatos em um espaço perto da sala, a professora pede que um dos funcionários retire aqueles animais dali. O “retirar” é um eufemismo para “matar”.

Marta (Yile Vianello), que interagia com os gatos em um abrigo encontrado por uma gata na paróquia, segue o homem que os transporta em um saco.

Diante de uma ponte, o sujeito para a motoneta, bate violentamente o saco algumas vezes no chão, certifica-se sem abrir o saco de que já não há movimentos e o lança ponte abaixo, em direção ao mar.

Esse é um exemplo visceral das contradições que envolvem o discurso da empatia e da compaixão naquele cenário cristão, e de como empatia e compaixão podem ser exploradas de acordo com o sentido que se quer dar, numa menorização.

Assim a empatia e a compaixão podem ser percebidas por Marta que visava o bem desses animais como um bem que existe no seu conveniente, arbitrário e violento sentido de exclusão. Há uma relativização em que empatia e compaixão têm um sentido que é ter pouco sentido.

Marta ainda tenta encontrar os filhotes há pouco nascidos, mas não consegue. Sua relação com essa realidade tradicional e ritual muda, se deteriora. Quando ela ajuda um padre a transportar o Cristo crucificado, o Cristo amarrado sobre o teto de uma van solta-se em uma curva e cai no mar.

A queda não envolve a violência e o desejo intencional de causar mal como no que foi feito com os gatos. Aquele Cristo também é referenciado como um Cristo simbólico, porém, diferentemente dos gatos, naquela materialidade, claro, não vivo. Ainda assim, há um lamento pela estátua que não há pelos gatos, a não ser o lamento de Marta.

Mais tarde, ela desiste da crisma durante a cerimônia e atravessa o lugar onde horas antes esteve em busca dos gatos. Marta não conclui a crisma porque há nessa ação uma ausência que passa a ser reconhecida por ela.

É também essa ausência que a leva a outro cenário, onde ela vê e sente a vida numa outra forma animal não humana, e ainda menor.

O filme está disponível no Mubi.

Leia também “Do que é feita a empatia pelos animais?“, “Como o mundo seria diferente com mais empatia por outras espécies” e “Do que é feita a compaixão pelos animais?

Jornalista (MTB: 10612/PR) e mestre em Estudos Culturais (UFMS).

Uma resposta

  1. O cristianismo é uma uma das mentalidades mais especistas e hipócritas que existem. Por isso um documentário como Christspiracy não é chega a ser exibido numa Netflix da vida.

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