Categorias: Opinião

Sou contra a exploração animal porque reconheço os animais como indivíduos

Foto: Moving Animals

Minha oposição à exploração animal é baseada em um simples reconhecimento dos animais como indivíduos. Acredito que usar o discurso do amor ou apreço pelos animais é como dizer que animais devem ser reconhecidos como dignos de direitos consoante a estima que temos por eles.

E se tal reconhecimento depende desse meu sentimento, o reconhecimento é sobre eles ou sobre mim, já que justifica-se pelo que sinto? Ou seja, o meu não apreço ou indiferença por animais então seria um argumento para privá-los de direitos? É a minha simpatia que deve determinar quem deve ou não ser submetido, por exemplo, às violências do consumo?

E assim, percebendo ou não, eu transmitiria que a minha recusa em contribuir com o mal causado aos animais depende somente desse “bom sentimento”, mas se o que sinto, por exemplo, desaparecesse eventualmente, e era justificativa da reprovação a esse mal, o que restaria?

E se dissemino essa mensagem, como meu exemplo pode contrapor aqueles que não têm interesse na estima pelos animais? O apreço e o amor por animais são construções de sensibilidade pessoal, de predisposições individuais que, embora possam ser vistas como expressões positivas, não significam que sejam transformadoras se reconheço que não são suficientes para mudar a realidade dos animais.

Podemos não reconhecer que um “bom sentimento” pelos animais é mais alusivo a nós do que a eles que são alvos desse sentimento, mas se usamos esse discurso condicionamos à estima o argumento de sua não exploração ou libertação. Logo o que permitimos aos animais nessa ausência?

Vejo uma lacuna em que o outro pode sentir-se livre para não compartilhar esse desejo resultante do “bom sentimento”. Portanto, acredito que a equânime defesa dos animais como indivíduos, amparada na percepção da exploração como mal desnecessário, é menos reducionista.

Enfim, se reconheço que a importância dos animais depende da importância que atribuo a eles sob uma perspectiva de estima, ainda mantenho-os como subalternos de minha condição humana, em que valores são determinados por fatores de apreciação.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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