
Animais submetidos à exploração humana são criaturas visíveis e simultaneamente invisíveis. Visíveis porque são vistos numa atribuição de “valor útil” e invisíveis fora da atribuição de “valor útil”.
É o dominante caráter de utilidade que determina a visibilidade e também impede o fim simultâneo da invisibilidade. Assim o visível e o invisível são elementos condicionantes de uma realidade de subjugação não humana.
Pode-se concluir que o ver é ao mesmo tempo não ver se a percepção do útil mantém-se imperativa, como uma parte que sempre pospõe uma contraparte, não permitindo uma “associação outra”, que nos leve a transitar entre percepções.
Então o “animal visível” subsiste para nós como “animal invisível” dentro do que nos condicionamos a percebê-lo e, ao mesmo tempo, não percebê-lo. Assim as misérias não humanas, incluindo suas dores, são assimiladas como simulacros, desvalores.
Um juízo sobre visibilidade e invisibilidade depende menos do que é visto e mais do que abriga-se na consciência. O visível e o invisível podem passar por transformações, ser ressignificados, mas isso depende do impacto da assimilação da representação.
O visível e o invisível não são fixos na consciência humana, eles transitam. É a possibilidade do trânsito que permite que a invisibilidade (reducionista) ceda à visibilidade (não consumerista). Se isso ocorre, as representações que chegam até nós sobre estados de supressão não humana resultam da “percepção outra”.
Então o olhar precedente e restringente desaparece, não de nossa memória, mas da constituição do ver e reconhecer; e a condição não humana deixa de ser sobre nós (na forma de interesses arbitrais) para ser sobre o outro, visibilizando a invisibilidade.
A rejeição à naturalização do “animal invisível” leva ao (ou é consequência do) seu reconhecimento como indivíduo/sujeito, porque a manutenção de sua invisibilidade depende do quanto compactuamos com a supressão de sua visibilidade – que pode ser avaliada pelo impacto gerado em “sua vida não vida”.