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Um documentário para você nunca mais tomar leite

Em “Cow”, acompanhamos a vida de Luma, uma vaca que é submetida à produção leiteira, até que, considerada inútil, é morta com um tiro entre os olhos

“Cow”, de Andrea Arnold, é um documentário de 90 minutos em que acompanhamos a vida de Luma, uma vaca que é submetida à produção leiteira, até que, considerada inútil, é morta com um tiro entre os olhos.

A importância do filme não está em mostrar que trata-se de uma situação específica, pontual ou de exceção, algo que acontece somente com Luma, e sim que a vida dela é uma representação da realidade dominante na produção leiteira. Ou seja, o valor do animal está somente no que pode ser tirado dele e, não sendo possível, é enviado para morrer.

Todos os problemas que surgem na vida de Luma estão relacionados à produção leiteira – desde os que envolvem a impossibilidade de conviver com seus filhos, e que levam-na a passar muito tempo mugindo em desalento, até os problemas de saúde que ela desenvolve em consequência dessa rotina exploratória.

Em “Cow”, não há intervenção no cenário ou na realidade, tudo ocorre como é – as interações com a vaca, a relação com os funcionários e com o que é determinado pelo próprio sistema de “produção”.

Assim a câmera funciona como olhar testemunhal. O filme também apresenta a rotina de uma das filhas de Luma. Privada do convívio com a mãe, as duas lamentam em espaços diferentes. Há vários momentos em que a bezerra procura uma teta que não encontra.

Vivendo em uma gaiola, ela passa a ser alimentada por meio de um bico artificial. Mais tarde, a bezerra sofre quando usam ferro quente para realizar uma cauterização visando inibir a saliência dos chifres que despontam.  Não há nada nesse documentário que seja superlativo sobre a realidade, porque volta-se para o que é naturalizado e que condiz com a grande oferta de laticínios baseada nas demandas de consumo.

No decorrer do filme percebemos a exaustão de Luma, como a energia da vaca é direcionada por condicionamento e imposição para o que não a beneficia. Ela é um meio, e sendo um meio já não viverá quando deixar de sê-lo.

Há uma cena em que um funcionário conversa com colegas de trabalho e diz que Luma “ficou protetora na velhice”, porque ela passa a querer proteger também os filhotes de outras mães. Chama atenção como o sentido de “velhice” surge nesse contexto.

A vaca é chamada de velha não porque está no limite do que poderia viver, mas no limite desse contexto de produção leiteira. Afinal, fora desse contexto de exploração, o que ela viveu seria considerado somente a metade do que poderia viver, o que entra em conflito com o sentido de “velhice”.

Por outro lado, não podemos negar que a referência à velhice pode fazer sentido pelo que é precoce em relação ao que o sistema impõe à vaca, reduzindo bastante sua expectativa de vida. Logo se ela não é velha, mas desenvolve comportamento de um animal já idoso, isso ocorre por uma questão contextual de domínio e subjugação.

Andrea Arnold também visa aproximar o espectador de Luma por meio de planos mais fechados, como se nos colocasse ao lado dela ou diante dela, de seus olhos, de sua expressão e de seus anseios que não podem se realizar para além daquele cenário, além de evocar a responsabilidade de quem assiste. O mesmo ocorre em relação à bezerra. Se isso ocorre, como o espectador pode não se sentir responsável pela vida e fim de Luma se ele contribui com esse sistema?

Também gera desconforto o tamanho dos úberes de Luma e de outras vacas, porque parecem pesados, desproporcionais aos seus corpos, interferindo na maneira como se locomovem, o que leva-nos a pensar que não há nada de natural nisso, e porque realmente não há.

Luma é morta enquanto se alimenta, sem saber que quem a levou até ali, deu-lhe a última porção de ração e chamou-lhe pelo nome, a traiu. Mas no que se baseia tal traição senão no interesse por leite e produtos baseados em leite? Quantas Lumas estão sendo mortas agora mesmo?

O filme está disponível no Mubi.

Jornalista (MTB: 10612/PR) e mestre em Estudos Culturais (UFMS).

4 respostas

    1. O bicho chamado “homem” é o inferno na vida dos animais, a questão é que se todos os animais fossem livres,todos poderiam usufruir naturalmente do que Deus deixou pra todos! Mas o homem estraga tudo! Tudo! Eu não pretendo nem ver esse documentário,o que eu já li,já senti o sofrimento deles….😥❤

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