Voltaire: naturalização do abate animal nos embrutece

“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida como nós e a geram da mesma maneira"

“Os sofrimentos de um animal nos parecem males, porque, sendo animais nós mesmos, sentimos que deveríamos estimular a compaixão da mesma forma como se fosse em relação a nós” (Arte: Reprodução)

Em 2014, o professor de literatura francesa Renan Larue, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, lançou o livro Pensées Végétariennes (Pensamentos Vegetarianos), que reúne uma compilação de escritos do controverso ensaísta e filósofo iluminista francês François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire.

“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida como nós e a geram da mesma maneira. Eles iniciam o movimento da mesma forma e comunicam-no. Eles têm sentidos, sensações, ideias e memórias. Animais não são totalmente sem razão. Eles possuem uma proporcional acuidade de sentidos”, escreveu Voltaire em Lettres de Memmius à Cicéron (Cartas de Gaius Memmius a Cícero) em 1772.

Para o filósofo francês, animais não humanos são fundamentalmente importantes e devem ser vistos como tal. E o que o impulsionava a defender esse ponto de vista era o seu anseio de mostrar ao ser humano que o antropocentrismo, a ideia de que ele tem lugar privilegiado na natureza, portanto deve dominar outros animais, é um atestado genuíno da jactância humana.

Embora não haja provas consistentes de que Voltaire tenha sido realmente vegetariano, aparentemente ele seguiu as recomendações do filósofo neoplatônico Porfírio. Além disso, ponderava que era um dever da humanidade assegurar o bem-estar dos animais.

Na década de 1760, quando Voltaire se aprofundou nos estudos da Grécia Antiga, incluindo nomes como Plutarco, Pitágoras e Porfírio, ele logo se interessou pelo vegetarianismo enquanto tema de pesquisa. A princípio, por uma questão particularmente dietética, e influenciada por Περ ποχς μψύχων (De Abstinentia ab Esu Animalium), obra escrita entre os anos de 268 e 270, em que o filósofo grego Porfírio fala dos benefícios e da importância da abstinência do consumo de alimentos de origem animal.

A versão lida por Voltaire foi traduzida pelo historiador Jean Lévesque de Burigny, um homem pacífico e considerado um dos grandes acadêmicos franceses de seu tempo. A obra chegou às suas mãos em 1761.

“Você mesmo, quando estava conosco, confessou que uma dieta sem carne contribuía tanto para a saúde como para a resistência dos trabalhos filosóficos; e a experiência testifica que ao dizer isto você disse a verdade. Mas quando fui informado por certas pessoas de que empregastes argumentos contra aqueles que se abstiveram de comida de origem animal, não só padeci, mas fiquei indignado contigo, que, persuadido por certos sofismas frígidos e muito corruptos, se enganou”, escreveu Porfírio.

Com o tempo, Voltaire sentiu-se incomodado com a banalização e legitimação da crueldade envolvida na criação e no abate de animais. Em Traité sur la tolérance (Tratado Sobre a Tolerância), de 1763, ele relata, sem velar o espanto, que homens comiam animais, membro por membro, enquanto estes ainda estavam vivos; o que não é muito diferente do que acontece hoje principalmente com sapos, peixes, crustáceos e outros animais.

Embora muitas pessoas demonstrem ceticismo em relação às inclinações de Voltaire ao vegetarianismo e ao bem-estar animal, livros como Pensées Végétariennes lançam luz sobre a importância que o assunto teve na vida de um dos filósofos mais polêmicos da história da França. Voltaire atribuía à humanidade a responsabilidade sobre o sofrimento dos animais que, segundo ele, optavam pelo abate ou massacre, ou ambos.

O ser humano é embrutecido pela naturalização do destino terrível dos animais que são colocados à nossa mesa. Sobre isso, Voltaire cita como exemplo crianças que choram com a morte do primeiro frango que eles veem matar, mas riem da morte do segundo. No artigo Viande, página 577 de Questions sur l’Encyclopédie (Perguntas Sobre a Enciclopédia), obra publicada entre os anos de 1770 e 1772, o francês questiona:

“Que bárbaro assassinará um cordeiro se esse cordeiro puder se defender num discurso comovente para não ser assassinado e canibalizado?” Crítico mordaz, Voltaire era bastante cético sobre as possibilidades da humanidade um dia aderir em massa ao vegetarianismo. Ele declarou que sob o disfarce da abstinência, até mesmo monges diziam desistir da carne, mas tornavam-se assassinos de solhas, linguados, perdizes e codornizes. Por outro lado, ele reconhecia que o vegetarianismo em essência existiu e poderia frutificar, embora não na proporção desejada.

Entre seus contemporâneos, o filósofo francês via bons exemplos em regiões da Índia, principalmente entre os fiéis praticantes do bramanismo. Em 1740, ele teve contato com muitas cartas de jesuítas que viajaram pela Índia, China e América. Reunidas em 34 volumes, deram origem ao livro Les Lettres édifiantes et curieuses (Cartas Edificantes e Curiosas), publicadas entre os anos de 1702 e 1776.

Quando estudou sobre a metempsicose ou transmigração de almas, Voltaire começou a crer que o respeito dos indianos pelos animais tinha relação com o receio de matá-los e renascerem noutra vida na forma das criaturas assassinadas. Assim como temiam que isso poderia afetar a passagem e a paz de seus parentes falecidos. Porém, em 1760, quando leu um possível manuscrito dos Vedas, intitulado Ezour Vedam, ele começou a entender que tratava-se de uma filosofia não supersticiosa.

Em 1763, Voltaire publicou um diálogo entre um frango capão e uma galinha. Uma das aves diz à outra que uma serva maldita a colocou sobre seus joelhos, enfiou uma longa agulha em sua nuca, agarrou seu ventre, o girou em volta da agulha, o rasgou e deu para que seu gato comesse. “Sou pacífica e nunca fiz nada de errado. Eu mesma nutri esses monstros, dando-lhes os meus ovos. Por que eu deveria ser castrada, cega, decapitada e assada?”, perguntou a galinha.

Em La Princesse de Babylone (A Princesa da Babilônia), de 1768, Voltaire narra que os pastores das imediações do Rio Ganges viviam em perfeita igualdade e jamais matavam seus rebanhos, porque era considerado um crime horrível matar e comer criaturas que são suas companheiras. No ensaio Il Faut Prendre um Parti (Devemos Tomar um Partido), escrito entre os anos de 1772 e 1773, o filósofo francês defende que a capacidade humana de sentir empatia pelos animais deve ser levada em conta quando se discute o conceito de maldade.

Para ele, o ser humano tem o hábito de discutir bem e mal levando em conta apenas a sua relação com seus semelhantes, excluindo o relacionamento que ele tem com outras espécies: “Os sofrimentos de um animal nos parecem males, porque, sendo animais nós mesmos, sentimos que deveríamos estimular a compaixão da mesma forma como se fosse em relação a nós.”

Referências

Voltaire. Renan Larue. Pensées végétariennes. La Petite Collection. Fayard/Mille et une nuits (2014).

Porphyry. On Abstinence From Animal Food. Kessinger Publishing (2006).

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