Categorias: Opinião

Por que comemos indivíduos?

Se digo a uma pessoa adulta que comer animais é matá-los, ela não estranhará, porque reconhecerá isso como algo concreto. No entanto, se digo que comer animais é privá-los de escolha, isso pode não ser reconhecido como concreto.

E porque matar animais tem uma significação objetiva – a carne vem do matadouro. Normalmente a reflexão terminará nessa conclusão. As associações que envolvem esse “matar” tendem a ser mais singulares/situacionistas do que plurais, a não ser que nosso interesse seja nos aprofundarmos no que isso representa.

Se falo, por exemplo, em “origem da carne”, quem a assimila somente como produto, logo associará com a ideia de um supermercado, um açougue, uma marca, uma indústria, uma localidade. Mas se falo em “origem da carne” para quem a rejeita como produto, a percepção será outra – e evocará o animal abatido e o seu ciclo de obliterações.

Ou seja, as significações vão sendo moldadas e transformadas a partir das nossas percepções da realidade. Sem dúvida, recebemos muitas informações e reforços durante a vida que desestimulam a ideia da “carne” como “não somente carne”, e mesmo quando alguém admite que a “carne não é somente carne”, isso não significa que contestará esse consumo.

Ademais, é da não contestação que vem o estranhamento sobre a ideia de “privação de escolha”, porque só entendemos a “ausência de escolha” quando olhamos para alguém como “passível de escolha”.

Mas o que a partir de nossa condição humana compreendemos por escolha? Se olhamos estritamente para nós, isso significa que não vemos o outro, e não vendo ele, quais escolhas identificamos que não as nossas?

O ato reconhecido como concreto, que é a morte, sem a qual não seria possível a obtenção da carne para consumo, é definitivo como “privação de escolha”, porque é terminativo da condição individual.

Porém, se compartilho tal reflexão com quem não reconhece animais como “sujeitos de escolha”, o estranhamento é efeito comum, porque a “ideia de escolha” não pode ser dissociada do “alguém”, e reconhecendo a “carne” como “proveniente de alguém”, a questão mais importante é: “Por que comemos indivíduos?”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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