No veganismo, tanto a elevação do mercado a grande motor de transformação quanto sua demonização reproduzem uma visão que, embora conflitante, é economicista. O problema do economicismo é o seu reducionismo, porque se o grande conflito está nessa esfera, então se ignora o funcionamento da hegemonia cultural da qual o especismo depende para sua manutenção.
Se o especismo, que é o que normaliza a exploração e morte de animais, precede o econômico, então a visão economicista, tanto positiva quanto negativa, ignora o principal campo de disputa. Afinal, a cultura surge primeiro para que então a economia possa se valer dela como agente reativo.
A partir de estudos sobre hegemonia cultural (Gramsci) e habitus (Bourdieu), podemos entender que atribuir ao economicismo um poder que ele não tem é ignorar a cultura como o campo primário da disputa pela libertação animal, que é o campo que antecede o mercado. Afinal, no que concerne ao especismo, o segundo opera dentro do primeiro e porque depende dele e só pode existir a partir dele.
A cosmovisão que hierarquiza os seres é anterior à sua exploração econômica sistematizada. O mercado encontrou o especismo já consolidado como senso comum e se valeu dele, não o criou. Se a cultura especista cria o habitus e a hegemonia que normalizam a exploração, olhar para o que sucede a cultura (economia/mercado) e vê-la como o campo primário da disputa é criar um conflito sobre um reflexo e não sobre a causa.
Se a indústria animal surge como consequência do especismo, que é uma hegemonia cultural, como acreditar que a maior disputa e as transformações estruturais se darão na relação vista como positiva ou negativa em relação com o mercado?
Encontramos o tempo todo expressões do veganismo economicista – desde quando se atribui a produtos o poder de superar uma cultura especista a quando se acredita que produtos vieram para cooptar o veganismo. Ou seja, são duas atribuições de poder que operam fora da lógica do especismo como hegemonia cultural.
Essas duas visões também ignoram a condição humana, que não pode ser meramente determinada pelo fator economicista. Acreditar no contrário é reduzir o ser humano a um recipiente a ser preenchido e não alguém com agência própria capaz de reagir aos seus próprios interesses que refletem suas predisposições culturais. Há nos dois casos o mesmo erro sociológico – o de tratar o ser humano como sujeito passivo.
Afinal, o mercado é também um reflexo de mediações culturais (Martín-Barbero), porque sem os interesses e a correspondência às mudanças desses interesses que surgem fora do mercado e na relação com o mercado, o mercado não tem condições de se manter estável, porque ele não tem condições de operar fora do que culturalmente se materializam como interesses.
É perceptível que as mediações culturais são anteriores e condicionantes. O consumo não é um ato puro de compra. É um ato mediado por significados, valores, identidades, distinções sociais, pertencimentos. Uma pessoa não compra um produto vegano apenas porque ele existe e sim quando ele faz sentido dentro do seu repertório simbólico. E esse repertório é construído culturalmente.
Portanto, quando o economicismo elege o mercado como o grande palco da transformação, ele abandona o trabalho de base da construção de sentidos. Ele quer o resultado sem o processo, quer a adesão sem a conversão, quer a mudança de hábito sem a mudança de visão de mundo.
Isso não quer dizer que o economicismo erra ao disputar o mercado, ele erra ao acreditar que esse é o campo de transformação, já que o mercado não pode substituir a disputa cultural.
Tudo que é explorado economicamente em relação com os animais decorre de uma demanda que é consequência de sua naturalização – a cultura. Acreditar na disputa economicista como a mais importante é como acreditar que o especismo foi criado pela indústria animal.
Se acreditamos que é possível superar o especismo com o messianismo ou a demonização do mercado, atribuindo a ele uma posição de salvador ou de destruidor, e o tratando como o terreno determinante, isso, vale reforçar, é ignorar a própria origem do especismo.
E notamos que, mesmo a visão que demoniza o mercado valida a visão que o vê como salvador, porque ela precisa admitir a potência do primeiro em vê-lo dessa forma para que então possa demonizá-lo.
Afinal, só se demoniza aquilo a que se atribui potência. Só se combate um espantalho que se julga capaz de ameaçar. O crítico economicista, ao afirmar que o produto “coopta”, “enfraquece” ou “desmobiliza” a luta vegana, está, na verdade, atestando a eficácia simbólica do produto – exatamente a mesma eficácia que o entusiasta economicista celebra. Assim, os dois superestimam o economicismo.
A demonização do mercado, nesse sentido, não é uma crítica ao economicismo. É o economicismo levado a outro paroxismo. É por isso que, no limite, o demonizador é o melhor publicitário do entusiasta. Porque ele circula a mesma mensagem de que “o produto transforma, é perigoso”, apenas com o sinal trocado. Mas, ao circular essa mensagem, ele reforça o lugar central do produto no imaginário ativista. Ele mantém acesa a chama do fetichismo. Podemos chamar isso também de uma dupla “fé no poder do objeto”, ainda que operada em direções opostas.
Se a indústria segue o especismo é porque isso reflete o poder cultural que não surge com a indústria, mas é operado por ela. Portanto, onde está o sentido de crer que o poder de salvar ou corromper a luta pela libertação animal está nesse economicismo se ele só pode reagir ao campo cultural que o precede? Ou seja, ele é dependente, não determinante.
Nem por isso devemos ignorar o papel do mercado, mas sim reconhecer que seus limites estão bem definidos, e que sua função é reativa. Hoje, o fato de produtos veganos ou plant-based ocuparem um nicho é uma prova desses limites.
A crença de que preços superam culturas também é equivocada porque é reducionista; e reflete também esse economicismo que ignora os mecanismos do habitus, que envolvem mais do que valor monetário. É a cultura que determina o funcionamento do mercado e não o oposto. Afinal, é preciso valer-se do que é, no mínimo, culturalmente preexistente.
Mover-se para enfraquecer o especismo depende de construir significados para desestabilizar o que é culturalmente normalizado. Mudanças profundas não virão de uma disputa economicista, mas de uma disputa que ocorre primeiro na cultura.
Com base nisso, não vemos outro caminho que não reconhecer a importância do veganismo pós-economicista para a libertação animal – entendendo que não há grandes mudanças negligenciando o poder e a importância da cultura. É também uma perspectiva não dogmática porque não atribui fé na salvação nem na demonização que envolvem o mercado.
É preciso construir novos sentidos para que as pessoas mudem, ou seja, sentidos convergentes aos seus valores e à adoção de novos valores. Portanto, quando o foco é economicista, assim como suas tensões, a atenção está se concentrando na consequência e não na causa. E dar menos atenção à causa é insistir em mudanças não estruturais.
O economicismo também pode favorecer o que chamamos de “veganismo passivo”, e que, nesse caso, pode operar de duas formas: na exaltação e na demonização. A primeira porque transfere ao fator econômico (mercado) o poder de mudança e a segunda porque abdica da disputa para simplesmente demonizar o mercado. A superestimação, por celebração ou condenação, pode nutrir uma mesma terceirização de responsabilidades em vez de disputar o campo da cultura. Quanto mais se atribui poder ao produto, para o bem ou para o mal, menos se exerce o poder que realmente poderia transformar algo.
A disputa que envolve exaltar ou demonizar produtos é uma disputa de superfície. Ao tratar a disputa econômica como principal, a visão economicista ignora a hegemonia cultural, o habitus e também as mediações culturais (o consumidor não é passivo). Isso não é sobre ignorar o mercado, mas subordiná-lo à disputa cultural, que é pós-economicista. Produtos podem facilitar a vida de quem já mudou, podem materializar uma possibilidade, mas não convertem – porque conversão é cultural.
A pecuária, os matadouros, o mercado de laticínios e ovos, por exemplo, são a materialização econômica da cultura. São a consequência de uma visão de mundo já estabelecida. Se a mudança não for primeiro disputada no campo dos significados, dos valores, do que é socialmente legítimo ou vergonhoso, não há uma desestabilização do especismo e sim “um ato de contorno”, que se torna uma coexistência incapaz de impactar no especismo. Isso reflete a importância do veganismo pós-economicista.
Apontar que a cultura precede a economia também não significa que ela seja imaterial. O habitus (Bourdieu) é exatamente a incorporação da estrutura. Ele é material no corpo, nos gestos, nos gostos. A disputa cultural inclui a disputa por condições materiais, porque elas reforçam ou enfraquecem o habitus. Portanto, é sobre colocar o mercado e os produtos em seu devido lugar: como consequência, não como causa; como ferramentas, não como fim.
Ativismo, educação, arte – tudo isso cria novos sentidos, desestabiliza o senso comum, forma pessoas. O pós-economicismo é sobre não subestimar a cultura. A questão do preço importa, mas não cria valores. O preço baixo de um produto de origem animal, por exemplo, reforça o hábito, mas não o cria. A cultura especista já estava lá quando o preço se estabeleceu. A disputa cultural precisa também disputar as condições materiais, mas sabendo que elas são consequência, não origem.
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