Quando estudei teoria da comunicação, um dos conceitos que me intrigou foi o da disfunção narcotizante, proposto por Lazarsfeld e Merton, que se aplica muito bem à banalização da violência, mas também a tudo que é errado, ainda que, por viés cultural e social, não seja considerado por muitos como imoral ou antiético.
Durante muito tempo, associei essa ideia a de uma criança que depois de testemunhar tantas mortes, já não sente mais nada quando vê um corpo caído; a do homem que lê tantas desgraças nos jornais que já não sente nada diante das tragédias.
Mais tarde, comecei a relacionar a disfunção narcotizante com, por exemplo, a nossa realidade nos açougues, onde encontramos animais mortos, e inclusive inteiros (como é o caso do leitão), mas nos negamos a vê-los como seres que, assim como nós, respiravam, se emocionavam, enfim, tinham vida.
Tenho certeza de que a maioria das pessoas quando vai ao açougue jamais pensa em como foi a vida do porquinho que repousa morto atrás de uma vitrine. Afinal, por que iríamos confrontar a realidade quando fomos condicionados a ignorar a exploração e a violência, vivermos em uma realidade de disfunção narcotizante?
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