Deixou de matar animais quando olhou pela primeira vez com atenção nos olhos de um porco (Foto: Andrew Skowron)

Deixou de matar animais quando olhou pela primeira vez com atenção nos olhos de um porco. “Parece olho de gente. Se tapar todo o resto, quem diz que é diferente?” Não era abatedor novo, já tinha experiência, e afirma que não sabe explicar o que mudou.

“A gente acha que vai embrutecendo, aceitando mais, e vai mesmo, mas quem sabe onde isso vai dar? Você pode duvidar, só que um dia tudo pode mudar.” Conta que porco é o animal que mais reage ao abate, é barulhento, e lá dentro fica atrapalhado.

Não sabe como escapar, como não sofrer, como não morrer. A dor começa cedo, bem antes do choque, da insensibilização, da degola. É uma trajetória. Será que na hora não sente nada mesmo? “O que você acha?” É mais fácil acreditar que sim. Ou no querer?

“Não sou porco. Você é porco? Quem sabe é o porco. Mas a gente pode interpretar pela reação do corpo.” Quando viu o animal balançando pendurado, soltando um guincho fraco, misturado a um gemido reprimido, esqueceu do corpo e mirou só o olho.

“Olhei primeiro um e depois o outro, então os dois. Cada um como se quisesse saltar pra um lado diferente. Já viu quando o olho faz isso? Falam que só na hora da morte.” Até que se encontraram.

“Olhava pra mim, já não fazia barulho nem tremia. Parecia rendido. E o sangue descia. Foi estranho porque pela primeira vez pareceu pior, não sei se pior ou mais real.” Por quê? “Já ouviu falar que o silêncio aumenta a culpa? Quando chega, se chega, vem de maneira que não se imagina. E diante de você, um par de olhos que não dá pra esquecer.”

Era um sangue tão vermelho e vívido que escorria – como se fosse uma vida líquida capaz de se transformar em qualquer coisa. Em um desenho animado talvez permitissem que escorresse e voltasse à forma original longe daquele lugar. Seria possível sim. Por que não?

Interpretação e ilusão. Não há mais aquela vida, a carne já foi vendida e, quem comeu, por que pensar sobre o que aconteceu? Um par de olhos no prato talvez fizesse diferença, não pra todo mundo, mas por que não acreditar que mudaria alguma coisa? “E mudaria…”

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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