Categorias: Pequenas Narrativas

Galinhas que não botam ovos são vendidas como carne

Frequentou por anos uma granja familiar onde comprava ovos. Sempre observou de longe e sem curiosidade o espaço coberto ocupado pelas galinhas. Não lhe importava as galinhas, somente os ovos. Vez ou outra, via alguma que corria, mas sem sequer pensar que fugia.

Não achava que deveria questionar tal espaço, e o que era oferecido às galinhas naquele espaço. A granja sabe o que fazer com esses animais, acreditava. A granja é o lugar da galinha. Quantos não pensam assim?

Às vezes, conversava com os proprietários da granja sobre assuntos diversos, nunca sobre galinhas. Eram educados e corteses. Boa gente, resumiu. Um dia, enquanto aguardava a separação de seu pedido quinzenal, saiu de um carro recém-estacionado um homem com um saco de ráfia e pediu uma galinha.

Parecia um pedido estranho – pedir uma galinha e segurando um saco. Também era a primeira vez que via “um pedido de galinha” numa granja. A proprietária sorriu e pediu que um funcionário fosse buscar “uma das” – sem completar a frase. Descarte. Compreensão tácita.

O funcionário levou o saco e trouxe algo, que era alguém que se movia dentro do saco. Quando o homem estava pagando, o comprador de ovos notou que havia dois ou três pequenos furos no saco e, de dentro, um dos olhos parecia estar em sua direção.

Mesmo que não estivesse, não conseguiu rejeitar a conclusão. Foi o que ficou na memória. O homem colocou o saco de ráfia no porta-malas, como se fosse de qualquer outra coisa, como um farináceo (o saco originalmente era de farinha de trigo), e foi embora. Parecia ação bem costumeira.

Quando entregaram a caixa de 180 ovos em suas mãos, sentiu como se estivesse carregando galinhas ensacadas. E não eram? Estranharam. Seus movimentos revelavam um peso diferente. Era um peso imaterial. Não voltou mais.

Observação

A prática de reduzir galinhas que não botam ovos à carne é padrão na produção de ovos, e, mais cedo ou mais tarde, ocorre com todas, já que produtores não manterão vivos animais que não deem retorno financeiro. Portanto, muitas são destinadas à indústria da carne. Enfim, um cruel e normalizado resultado da exploração animal.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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