Categorias: Literatura

A vida dos animais é feita de miséria e escravidão

Uma reflexão sobre especismo a partir de George Orwell

Ilustração de “Animal Farm” por Ralph Steadman

Quando publiquei um artigo na década passada abordando o que evocava também a literalidade da exploração animal no livro “Animal Farm”, de George Orwell, obra conhecida no Brasil como “A Revolução dos Bichos”, recebi críticas de que não caberia uma literalidade em uma construção política de não literalidade.

A justificativa era de que se é sobre animais deveria então ser percebido somente como sobre animais humanos, numa exclusão do não humano enquanto sujeito a ser refletido, já que sua construção seria somente alegórica.

No entanto, não é difícil perceber como a obra, para além de uma parábola associada ao desalento de Orwell com o stalinismo e perseguição aos trotskistas, como ele próprio explicaria em prefácio de 1947, evoca sim uma reflexão dual, como pode ser percebido na passagem abaixo, se pensarmos nos animais que são explorados e mortos quando considerados economicamente inviáveis:

“Então, camaradas, qual é a natureza dessa nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. […] A vida dos animais é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua” (Orwell, 2021, p. 12).

O dual é constante no livro, e rejeitá-lo como evocando não humanos é um equívoco confirmado em um posfácio com palavras de Orwell que passou a ser publicado em 2006:

“[…] os animais são explorados pelos homens de modo muito semelhante à maneira como o proletariado é explorado pelos ricos” (2021, p. 113). Christopher Hitchens, que reflete as intenções de Orwell em “Animal Farm”, teve seu posfácio incluído na última versão brasileira publicada pela Companhia das Letras, em que ele observa:

“O conceito de direitos dos animais ainda não existia naquela época, de modo que Orwell decidiu fazer um uso antropomórfico de sua percepção (2021, p. 114). A obra foi lançada em 1945, mas é citável que em 1892 Henry Salt havia publicado um livro em que discutia os direitos animais considerados em relação ao progresso social.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Curiosamente, a The Vegan Society e o conceito de veganismo são criados na mesma época na Inglaterra. Poderíamos dizer que seria um "Zeitgeist"? Não sei. Mas, de fato, o primeiro capítulo de "A revolução dos bichos" é praticamente um manifesto vegano. Se os animais pudessem utilizar a linguagem humana para expressar suas dores e angústias, seriam basicamente as mesmas palavras do Major. Um dos motivos de eu ter o livro (mais de uma edição, incluisive), para além da criatividade e sagacidade política e literária de Orwell, é justamente por causa desse capítulo.

    David, já que o assunto é literatura, aqui vão mais duas dicas que podem aparecer nesse tópico do site:

    A primeira é o livro recém lançado da escritora carioca Adriana Lisboa, intitulado "Os grandes carnívoros" (Alfaguara, 2024).

    A segunda é um ensaio da escritora polonesa Olga Torkaczuk intitulado Máscaras de animais", presente no livro "Escrever e muito perigoso: ensaios e conferências" (Todavia, 2023).

    Ambos os textos trazem pertinentes reflexões e provocações sobre a causa animal. Valem a pena.

  • Obrigado pelas sugestões, Philipe. Não li ainda esses dois. Publiquei em 2022 sobre o livro "Sobre os Ossos dos Mortos", da Olga Tokarczuk.

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