Uma pesquisa publicada este mês na revista científica Pnas e divulgada também pela revista Science apresenta evidências que apontam que o alto consumo de vegetais pode ter sido determinante no desenvolvimento do cérebro humano.
A revelação foi classificada pela Science como “um golpe” para aqueles que associam a imagem dos neandertais com “brutos comedores de carne”.
O Departamento de Arqueogenética do Instituto Max Planck para Ciência da História Humana, sediado em Jena, na Alemanha, chegou a essa conclusão a partir de um estudo envolvendo análise de fragmentos de bactérias encontrados em dentes de 124 indivíduos – entre neandertais e Homo sapiens do período pré-agrícola.
Um deles viveu há mais de cem mil anos em Pešturina, uma caverna em Niška Banja, na Sérvia, onde foi identificado o genoma mais antigo já reconstruído de um neandertal, segundo a Science.
Conforme a pesquisa, nossos ancestrais em comum consumiam muitos vegetais ricos em amido há pelo menos 600 mil anos, quando passaram a necessitar de mais glicose para o desenvolvimento de seus cérebros.
“Para que os ancestrais dos humanos desenvolvessem com eficiência um cérebro maior, eles precisavam de alimentos com alta densidade energética contendo glicose – um tipo de açúcar. A carne não é uma boa fonte de glicose”, disse à revista Science a arqueóloga molecular Christina Warinner, da Universidade Harvard e do Instituto Max Planck para Ciência da História Humana.
Os pesquisadores revelaram por meio do estudo que foram encontrados estreptococos nos dentes de neandertais e do Homo sapiens do período pré-agrícola, o que sugere que herdaram esses micróbios de um ancestral em comum que viveu há mais de 600 mil anos.
Esses micróbios têm uma especial capacidade de se ligar à amilase, uma enzima abundante em nossa saliva que libera açúcares de alimentos ricos em amido.
A presença de bactéria estreptocócica nos dentes de neandertais e humanos modernos reforça a conclusão de que eles consumiam muitos carboidratos ricos em amido, segundo a pesquisa. Isso atribui maior importância ao consumo de vegetais no decorrer da evolução humana.
Estudos anteriores já haviam destacado que os neandertais e Homo sapiens consumiam gramíneas, tubérculos e cevada, mas esta pesquisa em especial dá ênfase ao consumo de amido como sendo tão determinante que alterou drasticamente a composição de seus microbiomas orais.
O estudo liderado pelo pesquisador James A. Fellow Yates foi considerado inovador pela bióloga evolucionária Rachel Carmody, da Universidade Harvard, que analisou o trabalho, mas não participou da pesquisa.
“Como a enzima amilase é muito mais eficiente em digerir o amido cozido do que o amido cru, a descoberta também sugere que o cozimento também era comum há 600 mil anos”, declarou Carmody à Science. Para a arqueóloga molecular Christina Warinner, o resultado sugere a importância do amido no desenvolvimento do cérebro humano.
Saiba Mais
O trabalho contou com a colaboração de instituições dos EUA, França, Espanha, Noruega África do Sul, Itália, República Tcheca e Reino Unido.
Clique aqui para ter acesso ao estudo publicado na Pnas.
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