Categorias: Opinião

“Aperfeiçoamento genético” é intensificação da exploração animal

Foto: Andrew Skowron

Imagine se hoje pessoas fossem submetidas à modificação para renderem mais no trabalho, para produzirem mais, trabalharem por muito mais horas, e não em seus próprios benefícios, e sim de um sistema que visa subjugá-las ainda mais.

E como consequência desenvolveriam problemas desconhecidos antes dessa modificação. Afinal, seria uma nova realidade que daria origem a uma série de potencializações que levaria à redução de sua chamada “vida útil”, sucedida pela “morte útil”.

Afinal, quando não fossem mais úteis ou desenvolvessem problemas, inerentes à modificação, seriam descartadas, privadas de continuarem vivas – e suas mortes resultariam em uma compensação para quem os subjugou – levando à prática de “corpos mortos comercializáveis”.

Isso é análogo à realidade legal e institucionalizada de bilhões de animais criados para fins alimentícios que são resultado do que chamam, usando de um eufemismo instrumentalista, de “aperfeiçoamento genético”.

O “aperfeiçoamento”, que é modificação imperativa, é criar um animal, que dissociado de ancestralidade e afastado de seu parente mais próximo na natureza, é condicionado a ser explorado muito mais do que seria em condições naturais, que não são as suas, já que sua própria existência só é possível a partir da inaturalidade.

Então como posso dizer que trazer animais ao mundo para fins alimentícios não é uma forma de violação/violência partindo da relação de propósito entre lucro/consumo? O “aperfeiçoamento” é “medida arbitrária de eficiência”, porque requer de um animal o que não poderia ser requerido se fosse uma existência natural (o que é uma impossibilidade por sua condição doméstica).

Logo seria indesejado por sua incompatibilidade com o sistema e suas configurações de demanda. Portanto, é o “aperfeiçoamento” que leva ao “ideal produtivo” e ao “comum” do desenvolvimento não humano forçado que impõe maior produtividade e imola ainda mais a vitalidade animal.

Se temos mais animais sendo criados a cada ano para fins alimentícios e morrendo cada vez mais cedo, isso só é possível por causa desse “aperfeiçoamento”, que hoje é a base da produção de alimentos de origem animal.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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