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Bataclan: “Não comemos cadáveres”

“Muita gente deve ter torcido o nariz quando Bataclan incorporou ao seu discurso a defesa do vegetarianismo, no começo da década de 1950” (Acervo: Marcello Campos/Jornal do Comércio)

Na reportagem cultural “As Histórias de Bataclan”, publicada este mês no Jornal do Comércio, o jornalista e pesquisador Marcello Campos narra inúmeras histórias do icônico Cândido José dos Santos (1941-1990), mais conhecido como “Bataclan”, propagandista de rua que marcou época em Porto Alegre.

Mas o que mais chamou-me a atenção, de todas as histórias narradas, é que Bataclan condenava o consumo de carne na capital gaúcha, onde as churrascarias já faziam parte do cenário há mais de 60 anos.

“Muita gente deve ter torcido o nariz quando Bataclan incorporou ao seu discurso a defesa do vegetarianismo, no começo da década de 1950”, conclui o jornalista e pesquisador.

O propagandista não tinha receio algum de exposição, e realmente defendia aquilo em que acreditava. “Não comemos cadáveres”, bradava.

Segundo Campos, Cândido José fazia da ginástica e dos hábitos frugais uma bandeira constante de suas campanhas, várias delas focadas na caridade: “Surgia um personagem três em um: propagandista, atleta e benfeitor.”

Lendo sobre Bataclan, me recordei do jornalista e poeta Carlos Dias Fernandes (1874-1942), também defensor do vegetarianismo que levava uma vida frugal. Não fumava nem bebia, tinha aspecto juvenil de atleta e mantinha a forma praticando ginástica sueca.

Mas voltando a Bataclan, Marcello Campos conta que ele era ateu e fazia da relação homem-natureza a sua fé, o que incluía “banhos de orvalho”, rolando apenas de bermuda na grama ainda úmida pela madrugada.

Suas pérolas filosóficas constavam em folhetos datilografados em kits de ações beneficentes, de acordo com Campos. Em troca de um valor para uma causa nobre, os colaboradores recebiam um mimo simbólico acompanhado de reflexões como:

“Com o transcorrer do tempo empreendido no regime miraculoso que é o vegetarianismo, forma-se o elo indissolúvel para a saúde de ferro e uma personalidade fora do comum.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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