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Cientistas reconhecem que animais se comunicam de forma semelhante à humana

Descoberta revela não apenas a capacidade não humana de definições de comportamento social, como também inteligência (Foto: Reprodução)

Cientistas do Reino Unido e da Alemanha publicaram este mês na revista científica da “The Royal Society” um artigo intitulado “Taking turns: bridging the gap between human and animal communication”, em que reconhecem que os animais se comunicam de forma semelhante à humana.

De acordo com os cientistas Simone Pika, Ray Wilkinson, Kobin H. Hendrick e Sonja C. Vernes, animais não humanos, embora partilhem de um diferente código comunicativo em relação aos humanos, também costumam considerar a importância de “um ouvir enquanto o outro fala”. O que revela não apenas a capacidade não humana de definições de comportamento social, como também inteligência – o que não é limitado a poucas espécies. O artigo afirma que isso pode ser encontrado em todo o reino animal.

Durante muito tempo, acreditou-se que a pausa para ouvir enquanto o outro fala fosse uma característica estritamente humana, inclusive nos diferenciando dos primatas. O que, sobretudo, não é verdade, segundo os cientistas. Até mesmo animais como rato-toupeira reconhecem que a comunicação depende de turnos de emissões de sons – ou seja, é importante o silêncio de um dos interlocutores enquanto o outro se comunica.

Os autores do estudo afirmam que o “timing” é uma característica fundamental nos turnos de comunicação de animais humanos e não humanos. Mas o tempo de espera pode variar de espécie para espécie. Algumas aves, por exemplo, são conhecidas como “tagarelas” e “impacientes”, então não aguardam mais do que 50 milissegundos para “falarem” durante uma conversa. Já os cachalotes estão entre os animais mais pacientes porque, em resposta a um diálogo, normalmente “falam” dois segundos depois.

O artigo publicado pela The Royal Society deixa claro que não são apenas os seres humanos que consideram rude as interrupções durante uma conversa. Chapins e estorninhos europeus dão tanta importância ao “timing” em uma conversa que foram identificados como espécies que “treinam” para evitar a sobreposição durante a comunicação:

“Se ocorrer sobreposição, os indivíduos ficam em silêncio ou fogem, sugerindo que a sobreposição pode ser tratada, nessa espécie, como uma violação das regras socialmente aceitas de tomada de turnos”, informa o estudo “Taking turns: bridging the gap between human and animal communication”.

Os pesquisadores reconhecem que a falta de dados e de comunicação entre cientistas dificultou que estudos como esse fossem viabilizados anteriormente, já que o último trabalho nessa linha foi feito há 50 anos. Agora, Simone, Wilkinson, Hendrick e Sonja, que são especialistas em linguagem humana e animal, estão planejando traçar a história evolutiva da tomada de turnos durante a comunicação, o que pode permitir um novo entendimento das origens da linguagem, um território em que ainda há muito a ser explorado.

Referências

Pika, Simone; Wilkinson, Ray; Kendrick, H. Kobin; Vernes, C. Sonja. Taking turns: bridging the gap between human and animal communication. Proceedings of the Royal Society B – Biological Sciences. The Royal Society Publishing (6 de junho de 2018). 

Gabbattis, Josh. Animals are always talking to each other, scientific review finds. The Independent (6 de junho de 2018).

 

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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