Categorias: Opinião

Não há nada de normal em comer frangos gigantes no Natal

Há décadas, as grandes marcas de carnes do Brasil lançaram no mercado frangos gigantes que são procurados e consumidos no Natal. Hoje, além do Chester, da Perdigão, há o Fiesta, da Seara, e o Supreme, da Sadia. Há também outras marcas que seguiram essa tendência.

Normalmente os consumidores compram esses produtos pensando apenas que é algo especial, que condiz com a celebração do Natal, porque se são maiores significa que há mais carne e pode ser consumido por mais pessoas.

Mas não é estranho que pouco se fala que muita gente está consumindo animais que surgem como resultado da intensificação das modificações genéticas? Afinal, como um frango poderia ser tão grande?

Além de não ser comum questionar se tal consumo é saudável, geralmente não se considera o custo que tem para o animal se desenvolver tão rápido, ser tão pesado para que seja oferecido tão logo como produto. Que tal pensar em problemas envolvendo a estrutura musculoesquelética, alterações imunológicas e uso constante de antibióticos?

Para pensar essa questão uso o exemplo do frango considerado “comum” que hoje já não é o mesmo frango de décadas atrás. Um estudo científico disponibilizado pela Science Direct, da Elsevier, revela que em 2005 os frangos já cresciam mais de quatro vezes mais rápido do que as aves criadas em 1957. À época, e se “tudo corresse bem”, um frango não ganharia mais de 0,9 quilo em 56 dias. Hoje, eles superam de longe o tamanho considerado “ideal” à época.

Agora pensemos no desenvolvimento atual dos frangos gigantes ou superfrangos que são consumidos no Natal, que devem crescem e acumular muito mais carne do que esses animais classificados como “comuns”. Não é algo a se refletir? Nos frangos “comuns” já foram evidenciadas consequências como distúrbios metabólicos, problemas respiratórios/cardíacos, calcificação e deformação dos ossos; e isso em relação a animais que são mortos a partir dos 30 dias de idade.

As modificações para que se ofereça cada vez mais carne aos consumidores em menos tempo tem intensificado o uso de antibióticos em animais também como “estratégia de desenvolvimento” e “prevenção de doenças”, até pelo reconhecimento de que esses animais são criados em um ambiente em que desenvolver problemas de saúde é iminente, além disso ser favorecido pela própria condição física desses animais.

Quando olhamos para frangos gigantes, em vez de nos deslumbrarmos, achando isso incrível, deveríamos refletir sobre o que isso representa para além de um mero interesse em comê-los, e de forma tão automática que é como se não houvesse nada a se questionar.

Ademais, podemos refletir também sobre os nomes dos produtos que romantizam a realidade ao criarem uma impressão a ser pensada somente como positiva e festiva, que não leva a pensar no animal, mas somente na idealização da experiência de consumir tal produto.

Claro que não seria diferente, já que o objetivo da empresa é lucrar e o do consumidor é consumir, mas hoje com uma pequena atenção podemos e devemos nos questionar sobre o que consumimos e quais implicações estão envolvidas nesse processo. Afinal, não há nada que realmente nos impeça de nos retirarmos de uma condição conveniente de passividade.

Leia também “Nunca mais comeu peru no Natal“, “Por que falar em peru como carne e não como animal?” e “Comercial de Natal romantiza a matança de animais“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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