Categorias: Opinião

Como é nascer sendo escolhido para não viver?

Foto: Aitor Garmendia

Como é nascer sendo escolhido para não viver? Posso pensar em animais criados em maior quantidade para fins de consumo e posso pensar nos que julgo receber menos atenção, porque há algo imperativo que determina a quais dedicaremos mais atenção.

Há fatores que podem motivar-nos a considerarmos mais a violência contra alguns animais do que outros, e mesmo quando dizemos que somos contra o especismo. É possível que existam critérios inconsiderados de simpatia confundida com empatia, uma ideia de afinidade, de semelhanças e dissemelhanças ou predileções e preterições.

Podemos dizer coisas que transformam-se em outras coisas ou que conflituam-se com outras a partir de impercepções. Podemos dizer que a fragilidade de alguns animais leva-nos a sentir um peso decisório maior, se está na contramão do que pode poupar-lhes de uma vida miserável, seja breve, mais breve ou visceralmente breve.

Recordo-me das vezes em que testemunhei pessoas dizendo: “Por que matam essas criaturas tão lindas e fofas?” Assim transferimos do humano ao não humano os valores estéticos que associamos com o “direito à dignidade do viver” ou “de não sofrer”. É mais fácil respeitar, ser compassivo e empático com o que (quem) percebemos como agradável aos olhos?

A famosa música do The Smiths, “Meat is Murder” também desenvolve na voz de Morrissey uma notória associação entre beleza/compaixão. Penso no seu reducionismo, não desqualificando o impacto positivo, porque entendo que exaltar a beleza de “outras criaturas” também é meio de reconhecê-las, por viés romântico, como “indivíduos completos”, pelas suas próprias condições, que na realidade não são suas, e sim resultantes de um determinismo que não pode ser associado a uma origem desconectada do intervencionismo humano.

E o que dizer do comum enlevo em relação a animais criados para consumo enquanto filhotes, mas que dilui-se em consideração conforme crescem e mudam? Esse estranhamento também é evocativo da ideia de que a resistência em matá-los não é de igual intensidade, porque na associação entre percepção de beleza e anseio por não vê-los mortos a escala de rejeição é volátil.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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