Categorias: Opinião

Como filmes de terror expõem a realidade dos matadouros

Foto: Jose Valle

Matadouro é um ambiente explorado pelo cinema de terror. Filmes hollywoodianos, B, slashers, exploitation não apenas utilizaram esse ambiente onde a morte ocorre o tempo todo como transferiram suas características, maneiras e “instrumentos” para outros contextos, permitindo uma conexão com o espaço onde mortes não humanas resultam em carcaças disponíveis ao consumo humano.

O cinema giallo, que influenciou o cinema de terror a partir dos anos 1980, foi pioneiro em explorar o vermelho-sangue baseado nos matadouros como um desconfortável e psicodélico recurso estético do uso de luzes, porque um assassino em série assume uma posição de “abatedor” que prefere manter-se irrevelado o máximo possível.

Essa não revelação permite associação com a nossa realidade, porque é entendível que a figura do “abatedor” que atende à indústria da carne, sendo sujeito de prática não apenas serializada como massificada, não é una, mas múltipla, porque sua instrumentalização como “indivíduo de prática de morte” só é possível porque há um grande corpo de indivíduos que são condutores dessa violência.

“The Texas Chainsaw Massacre”, de Tobe Hopper, por exemplo, com exceção da serra elétrica, que entra como uma versão móvel da serra fita usada para cortar carne, mimetiza a experiência de um matadouro/açougue. Muitos podem não associar esse contexto com a realidade de animais abatidos o tempo todo, e porque o que é entendido como diferença é a “institucionalização da matança” e suas motivações.

Ou seja, “o certo e o errado” são avaliados sob a perspectiva de “legalidade”, “permissividade”, “preterimento não humano” e “indiferença consequencial”. Essas questões são evidenciadas no filme de terror “Midnight Meat Train”, baseado em um conto de Clive Barker, que concebe um matadouro móvel em um trem, abordando a exploração animal a partir de uma inversão.

O que pode ser definido como uma “compulsão humana” por carne ganha uma outra escala no conto/filme, porque o que os animais não humanos são para nós, passamos a ser para outros seres – numa condução de reflexão sobre escalas de violência que legitimamos pela imersão na crença do supremacismo humano.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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