De acordo com uma pesquisa do Instituto Ipsos, o Brasil é o quarto país mais estressado do mundo, tendo a rotina de trabalho como um dos principais fatores. Trata-se de um problema também que exige que pensemos em relação com o veganismo – já que pessoas estressadas e cansadas tendem a não se envolver com causas pela consideração de que “já lidam com problemas demais”. Portanto não são apenas problemas individuais – são também obstáculo políticos e sociais que afetam diretamente a capacidade das pessoas de se importarem com causas como a vegana.
Pessoas sobrecarregadas tendem a priorizar questões imediatas (contas, sobrevivência no trabalho, outras obrigações em casa) em detrimento de causas, que tendem a ser normalizadas como “distantes”. E infelizmente sabemos como muitas pessoas não veganas realmente podem ver o veganismo dessa forma. Assim, a conexão entre estresse crônico, trabalho exausto e a dificuldade de engajamento no veganismo (tanto na adoção quanto no ativismo) é um ponto crucial que merece ainda mais destaque.
Afinal, o estresse reduz a capacidade de empatia (estudos em psicologia social mostram que exaustão mental diminui a disposição para pensar em outros, humanos ou não humanos). Logo, se consideramos o veganismo uma prioridade, muitos outros, mesmo que encarem à distância o veganismo de forma positiva, podem vê-lo somente como “mais uma demanda” em uma vida já cheia de pressões.
O estresse e o cansaço gerado pelo trabalho e pela vida sob pressão econômica não são um detalhe – estão entre os inimigos do avanço do veganismo. Se queremos um mundo vegano, precisamos reconhecer a importância de que as pessoas tenham tempo, saúde mental e energia para se importar. Mesmo quem vive essa realidade e ainda assim é vegano não pode ignorar que as pessoas não são iguais. Portanto é preciso pensar em alternativas sobre o que pode ser feito hoje para ampliar esse envolvimento.
Claro que isso não impacta somente em quem não é vegano, mas também em quem, ao sentir-se esgotado pela rotina exaustiva de trabalho, de luta pela sobrevivência, migra do ativismo para o “veganismo silencioso”, que é um termo referente a veganos que não fazem ativismo, que já não dedicam energia a motivar outras pessoas e talvez também porque já não conseguem. Ter uma rotina sufocante afasta pessoas das transformações pelas quais já lutaram em determinados períodos de suas vidas.
Enfim, em um país onde a maioria das pessoas trabalha muito e ganha pouco, o cansaço e o estresse prosperam e são inimigos silenciosos tanto do ativismo vegano quanto da aproximação de pessoas do veganismo – eles minam o tempo para reflexão. Portanto, para ser mais inclusivo, precisamos olhar para como as pessoas se relacionam com o tempo e o que podemos fazer para que vejam não apenas o veganismo como possível, mas também a ampliação do ativismo vegano – que também precisa crescer se queremos aproximar mais pessoas do veganismo.
Podemos apoiar mudanças que envolvam redução da jornada de trabalho (como pauta favorável ao veganismo – afinal, pessoas menos estressadas têm mais capacidade de se importar com outras causas), e pressão por políticas públicas – exemplo: alimentação vegana acessível em restaurantes populares, escolas e no trabalho podem ajudar a reduzir a barreira da “falta de tempo”. Acredito que qualquer vegano pode pensar em alternativas para lidar com essa realidade.
Este é outro artigo que dialoga com “Longas jornadas de trabalho dificultam envolvimento com o ativismo vegano” e “Movimento vegano tem alta desistência do ativismo”.
Observações
O veganismo exige energia mental (e quem se sente esgotado não tem)
O estresse reduz empatia
A indústria explora o cansaço
Levar o ativismo para onde as pessoas já estão
Ativismo de baixo esforço como alternativa
Vincular veganismo a autocuidado
Observação final
É importante entender que o cansaço e o estresse são obstáculos à luta contra o especismo. Se não adaptarmos a mensagem e as estratégias para quem vive no limite, o veganismo continuará sendo o movimento de uma minoria — e não uma revolução.
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