Foto: Andrew Skowron

Garoava quando encontrou um caminhão parado no pátio de um posto. Ouviu som diferente e notou dúzias de olhos de aves por trás das grades – empilhadas na carroceria. Quietas e irrequietas. Havia uma avícola não muito longe dali.

Olhou em volta, sem gente por perto. Esqueceu da vontade de ir ao banheiro. Viu asas feridas. Má distribuição de espaço, pode-se concluir, e concluiu depois de contar nove no aperto da caixa – uma delas parecia cega e outra pressionava a cabeça contra a grade.

“Deve ser estranho ficar amontoado aí, sem saber pra onde vai. Ou talvez saiba e eu ache que não. O que sei? O que qualquer pessoa sabe sobre isso? Acho que só você que sabe”, comentou olhando para um frango de olhos arregalados, que nem piscava.

Dizem que quem é criado pra morrer cedo tem sentido diferente, e que os olhos dos frangos mudam de tom várias vezes entre o transporte e o abate, e cada um é manifestação diversa de emoção.

Lembrou do que a avó falou um dia, que os anéis de sentimentos foram inspirados em olhos de frangos e galinhas. “Parece algo bonito, mas tem fundo sombrio.” Estranhou a lembrança de quase 30 anos.

Tossiu e sentiu o hálito. Comeu frango ao molho no jantar e o gosto continuava na boca depois de escovar os dentes e a língua. “Será que é porque estou diante de vocês? Se isso significa alguma coisa, quem sabe?”

Olhou para eles e teve a impressão de que todos aqueles olhos em sua direção eram pequenas lanternas, e lanternas podem ter significado diverso, e talvez mirar ou apontar seja mais importante do que iluminar.

“Você está bem, amigo?”, perguntou o motorista do caminhão. “Por que está falando sozinho?” Olhou para a carroceria refrigerada e aberta, onde restavam poucas caixas de frango congelado e embalado. “Se puder dar licença, vou ter de tirar essas últimas”, disse outro homem. Sentiu o hálito de novo e recuou.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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