Categorias: Opinião

Comprar produtos de origem animal também é pagar pelo conforto de ser ludibriado

Foto: Konrad Lozinski

Comprar produtos de origem animal também é pagar pelo conforto de ser ludibriado. O investimento feito para reforçar representações que emanem associações positivas irrealistas também é parte do custo desses produtos.

As pessoas não pagam apenas pela aquisição, para consumi-los, mas também para serem enganadas, porque a propaganda é parte do processo; e não posso dizer que ninguém deseja ser enganado, se conjecturo sobre o que envolve a produção de alimentos de origem animal.

Algumas coisas podemos questionar sem precisar testemunhar, reconhecendo do que depende esse sistema. Ponderar sobre etapas indissociáveis da geração de produtos, como suas consequências para quem dela é alvo para matéria-prima, já permite esclarecimento que jamais é oferecido por quem lucra com essa cadeia de geração de produtos.

Por mais que algumas ou muitas construções propagandísticas pareçam-nos absurdas, o fato de que continuem sendo idealizadas e veiculadas revela que há grande endosso e ínfima rejeição.

As inverdades sobre possível satisfação dos animais como parte do processo imanente de reificação e produtificação são prova disso. Não é algo que esteja latente apenas em campanhas e comerciais, mas na percepção que favorece uma ou muitas ideias artificiais como “oficiais” em relação à realidade.

Programas ou reportagens sobre a agropecuária, por exemplo, trazem, por naturalização, representações hegemônicas. Não são a realidade, embora sejam entendidas como se fossem, mas a “verdade de um sistema”, o que não significa “a verdade”.

Seu recorte não envolve pluralidade (o animal não tem vez, voz ou representação – sua subalternidade é extremada) ou transparência, e não permite conclusões que não sejam “a versão oficial” do sistema. Quando o consumidor não é induzido à manutenção e ampliação de interesses econômicos arbitrários de indução consumerista?

Imagino agora uma escola levando estudantes para acompanharem o desenvolvimento de animais criados para consumo a partir do nascimento. Mais tarde, poderiam decidir se cada um dos animais deve ou não ser usado para fins alimentícios. O que isso representa simbolicamente para o sistema?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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