Categorias: História

No século 19, Comte observou que humanos estavam tratando outros animais como “laboratórios nutritivos”

Foto: We Animals

Em “A lição de sabedoria das vacas loucas”, Lévi-Strauss cita como Auguste Comte, mais conhecido como “o pai do positivismo”,  foi profético no século 19 ao observar que os animais submetidos à lógica do lucro e do consumo recebem o tratamento de “laboratórios nutritivos”, considerando o que seria feito com esses animais na eficiência da obtenção de proteína animal. Isso condiz ainda mais com a realidade atual do que com a época e contexto de Comte, que faleceu em 1857.

Comte, nesse ponto, converge com o que seria observado mais tarde por Élisée Reclus quando esteve no Brasil e viu no importado gado Jersey, e já em “proporções incomuns”, um animal simbólico dos novos caminhos da produtificação não humana, incluindo também outro sinal do aumento do distanciamento humano-não humano.

Comte antecipou o que seria a vida dos animais a partir do conceito de “laboratórios nutritivos” – o animal que, comumente pensado como fim no interesse alimentício, é submetido não apenas ao que é, mas ao que deve ser; o que significa também o quanto pior deve ser, se ponderadas as imposições de vida para não vida em nosso tempo.

Assim o “laboratório nutritivo” é a definição de Comte para os animais que transformamos e submetemos ao que quisermos na obtenção de mais carne, mais leite e mais ovos em menos tempo, e por conseguinte. Pense em bilhões de animais vivendo cada vez menos – é consequência do “laboratório nutritivo”.

É a constante permissividade do apagamento animal por um desejo contraditório por sua desanimalização. Nessa esfera de tratamento, o animal é “laboratório” pela imposição do animal que não pode ser. Seria ingenuidade acreditar que tudo resume-se ao sistema intensivo, se fora dele também perpetua-se tais ditames.

O “laboratório nutritivo” na percepção de Lévi-Strauss envolve a imposição da canibalização de outros animais, já que na eficiência de obter proteína animal, animais herbívoros são transformados em canibais.

Não apenas consumimos os animais que, como “laboratórios nutritivos”, submetemos ao nosso domínio. Também modificamos suas condições de vida impondo antinaturalidade outra em que o animal come outro animal na insciência, pelo que o consumo humano impõe ao consumo não humano.

Não por acaso a chamada “doença da vaca louca” surgiu em consequência de alimentar ruminantes com restos de outros animais misturados na ração e em forma de farináceos.

Leia também “Élisée Reclus e um olhar sobre a exploração animal no Brasil em 1893” e “Um animal deve ser tratado como um laboratório de carne?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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