O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos. O animal criado para fins de consumo é o arquétipo do animal que vive a prisão do seu próprio corpo. Podemos acreditar que livrá-lo do matadouro é libertá-lo. Isso é positivo, claro, mas não representa a totalidade da prisão em que esse animal está inserido. Afinal, não podemos ignorar o que precede até mesmo o viver desse animal: sua condição biológica.
Animais criados para consumo não são mortos mais cedo porque “é natural” que morram cedo, mas porque seus corpos passam por seleção e manipulação genética para que “atinjam seu pico” absurdamente mais cedo. Como exemplo, podemos comparar o porco doméstico e o porco selvagem. O primeiro é morto com cinco ou seis meses de idade e pesando o que um porco selvagem não é capaz de atingir nem com um ano de idade.
Assim, a sentença se cumpre na própria ontologia do animal. A seleção genética para crescimento acelerado, maciez da carne ou maior produção de leite ou de ovos cria organismos que são, em si mesmos, castigados pela sua própria potência sob intervenção humana. Um frango que tem dificuldade de suportar o próprio peso, uma vaca com mastite crônica, uma galinha com peritonite do ovo, um porco que atinge cem quilos em meses – esses são corpos em sofrimento independentemente do dito “manejo humanitário”.
Podemos demonizar a indústria, mas isso seria ingenuidade, porque ela responde a uma demanda cada vez maior por produtos de origem animal. Animais não morrem cedo porque temos “uma indústria maligna”, mas sim porque o massivo apetite por esses produtos exige novas formas de se criá-los, que impõem mais pressão sobre eles – intensificando um viver antinatural inscrito em sua própria biologia.
Afinal, como a indústria investiria em novas formas de transformar animais em prisioneiros de seus próprios corpos se não fosse pelo desejo dos consumidores por produtos animais? Alguém pode dizer que se alimenta de animais, porém não concorda com isso. Mas se hoje a “eficiência” de uma alta oferta depende cada vez mais disso, como ignorar o que é intrínseco a ela?
Outro ponto comumente ignorado é que tornar produtos animais mais acessíveis está cada vez mais atrelado a uma eficiência em sua industrialização – o que significa intensificar mais ainda a transformação de animais em prisioneiros de seus corpos. Logo, carne, leite, ovos e seus derivados mais baratos significam impactar ainda mais no que significa ser um animal não humano nessas relações de consumo.
Isso requer que animais vivam ainda menos (ciclos biológicos acelerados ao máximo), espaço vital minimizado (maior densidade animal por metro quadrado); corpos redesenhados como máquinas (genética ainda mais voltada para rendimento de “produção” ou “corte”, não para saúde ou bem-estar animal); e aceleração do processamento industrializado (linhas de abate ultrarrápidas, onde na prática o “humanitário” é um gargalo operacional a ser eliminado).
Essa demanda não é um dado natural da humanidade; é culturalmente construída e normalizada. A indústria molda “animais-prisão” porque nós, coletivamente, financiamos e validamos esse projeto com nosso desejo e nosso dinheiro.
Um porco resgatado que sofre de artrite precoce devido ao crescimento acelerado, uma galinha que não consegue andar direito porque seu esqueleto não suporta o peso da “genética de postura”; esses podem ser libertos do matadouro, mas não do projeto industrial inscrito em suas células.
Mesmo quando um porco, boi ou frango é resgatado e enviado para um lugar onde não será mais explorado nem abatido, ele terá de conviver com todas as limitações decorrentes de uma condição que o criou para ser um produto e não um fim em si mesmo.
A vida deles é uma negociação constante com um corpo que foi projetado para fracassar rapidamente, mas que, por um acidente de sorte (o resgate), pode perdurar. A “libertação” é, assim, a liberdade de experimentar não apenas “as coisas boas da improbabilidade”, mas também as consequências de sua própria distorção.
Então o seu viver é uma luta entre o seu querer e o que foi imposto a ele biologicamente, portanto, precedentemente ao seu nascimento. Assim, ele está sempre vivendo o conflito de sua própria agência (o ser a si mesmo como indivíduo) e os limites dela – não poder prevalecer ao mal de sua condição biológica-mercadológica.
Mas pensar essa condição mercadológica em desconexão com o consumo, que é o que cria o cenário cultural para essa realidade, seria um reducionismo e um erro. Como nos lembra Bourdieu em seus estudos sobre cultura e habitus, são os significados que construímos em torno de um hábito que possibilitará tudo em relação com esse hábito – como a indústria e suas ações.
Logo, não há condição mercadológica-biológica em desconexão com os signos que validam interesses e desejos em conexão intrínseca com essa realidade e que não surgem com a indústria, embora sejam convenientemente explorados por ela.
Se compreendemos que tudo isso se constitui a partir da hegemonia cultural, para emprestar um conceito de Gramsci, podemos logo reconhecer que o problema não se concentra na indústria, mas na nossa própria cultura. Se a mudamos, essa indústria perde sua razão de ser.
Isso é poderoso porque desloca a responsabilidade não para o que acreditamos que não podemos mudar, mas exatamente para o que podemos mudar quando reconhecemos que participamos disso e podemos não participar por meio de escolhas de consumo. Até porque a hegemonia é bem-sucedida quando consegue fazer o opressor parecer um monstro autônomo e não um sistema a serviço do nosso apetite com base em um senso comum.
Essa realidade abre-se para nós como uma forma de validar, como Canclini defende na sua proposição de consumo como cidadania e Martín-Barbero na teoria das mediações, que na rejeição de que somos sujeitos passivos nas relações de consumo é porque sempre temos condições de disputar os significados e redesenhar uma nova cultura – cultura que sempre precede qualquer consumo porque é indissociável dela.
Mas para mudar a realidade precisamos reconhecer primeiro que não é a indústria que tem poder sobre nós, mas somos nós que cultivamos o terreno cultural para que ela prospere. Então se queremos mudanças profundas, isso depende de não negligenciar a mesma lógica.
A indústria só tem poder quando o concedemos por meio de um conjunto de práticas, desejos e consentimentos que chamamos de cultura. Ela é a planta, nós somos o terreno. Enquanto atacarmos a planta e negligenciarmos o terreno, novas plantas brotarão. Se a indústria prospera porque cultivamos um habitus especista, então nossa estratégia deve ser cultivar um habitus vegano. Devemos usar o mesmo processo (a construção cultural), mas com conteúdo oposto.
A vida desses animais não é uma jornada, é um processo industrial contínuo. Seu corpo é a fábrica e o produto é a sua própria carne. O “sucesso” zootécnico é medido por quilos de ganho de peso no menor tempo possível. Ainda assim, o maior absurdo é que olhamos para “essa proeza da ciência” – fazer um mamífero de grande porte crescer tanto em tão pouco tempo – e a celebramos como “eficiência”. Muitos acham isso admirável, ignorando o que isso significa para o próprio animal. Não paramos para refletir que estamos diante de uma doença artificial chamada produtividade. Não se trata apenas de encurtar a vida, mas de deformar toda a experiência de estar vivo. O impacto não é só físico, é existencial.
Imagine a sensação de um corpo que cresce mais rápido do que suas articulações podem suportar. É uma dor crônica, um desconforto de base. A respiração é sempre ofegante (o sistema cardiorrespiratório não acompanha a massa corporal). É a experiência de ser um prisioneiro de uma biologia acelerada, onde cada peso adicional é um fardo, não uma força. O corpo, que deveria ser o veículo da vida, torna-se uma fonte de sofrimento constante.
O animal é um feixe de instintos e necessidades sensoriais. Um porco, na natureza, é um explorador. Ele fuça, revolve a terra, constrói ninhos, toma banho de lama, forma complexas hierarquias sociais. O tempo é marcado por ritmos: buscar comida, migrar, brincar, dormir, procriar. Em confinamento, que é a prática mais normalizada considerando a alta demanda por carne que levou ao “aperfeiçoamento industrial”, que é consequencial, o tempo é uma linha reta, monótona e vazia, que vai apenas do nascimento ao abate. Não há “eventos”, apenas a espera. É uma experiência de tédio existencial, onde os dias se fundem em uma única e longa experiência de confinamento.
Sua experiência sensorial de tato é: o frio do piso de concreto, o contato com as barras de ferro, a aglomeração de outros corpos igualmente angustiados. De olfato é: o cheiro acre de amônia, de fezes, de morte. A ausência total dos aromas complexos da terra, das plantas, do ar livre. De audição é: o ruído constante do metálico, gritos de outros animais, máquinas. A ausência dos sons do vento, do espaço aberto, da comunicação natural. É uma experiência de privação sensorial severa, que leva ao tédio profundo, à frustração e, frequentemente, a comportamentos estereotipados e autodestrutivos, como morder o que o limita ou está mais próximo.
A relação mais fundamental, entre mãe e filhotes, comumente é reduzida a “tetas” e “grades”. Os leitões são desmamados brutalmente cedo. Eles não aprendem os códigos sociais complexos de sua espécie. Suas “sociedades” são aglomerações de indivíduos estressados e frustrados, o que leva a brigas e pode levar ao canibalismo. A experiência é a de uma solidão em meio à multidão, sem os laços que dão significado à vida social.
A engrenagem central, o motor de todo o sistema, é o ato de consumo. Sem ele, a máquina para. Se a engrenagem central é o ato de consumo, então a alavanca da mudança está no mesmo lugar. Não está em um boicote abstrato a um “inimigo”, mas na recriação ativa dos significados que damos ao nosso alimento. Cada refeição é um voto no tipo de mundo que estamos cultivando: um mundo que projeta prisões em corpos alheios ou um mundo que não inscreve, em corpo algum, uma sentença de antemão. A saída não está em destruir a fábrica, mas em desligar, coletivamente, a demanda que a alimenta – e religá-la a novos desejos, construídos com novas mediações: um novo habitus. A revolução é cultural, ou não será.
A libertação animal é um conceito muito mais profundo do que abrir as portas de um confinamento ou de um matadouro. É uma revolução semiótica e cultural que precisa acontecer dentro de nós, para que um dia deixemos de projetar nossas necessidades em corpos que têm sido feitos para sofrê-las. O animal resgatado, em sua luta diária contra o próprio corpo, é o lembrete vivo e trágico de que nossa cultura ainda precisa ser transformada.
Um animal-prisão, que surge como fim no consumo humano, é o animal que reflete o esgotamento de seu próprio tempo. Isso se reflete ainda no impedimento de criar vínculos (não há tempo para isso e nessa escassez qualquer vínculo poderia resultar em disputa de recursos), na individualidade atrofiada (não há tempo de desenvolver a personalidade) e na “ditadura do metabolismo” (crescimento desproporcional à própria estrutura). Paradoxalmente, a compressão do tempo é a grade invisível que nos impede de ver a vida plena que está sendo truncada. É uma vida para ser destruída o mais rápido possível. Isso é engenharia biológica da vida para a morte.
Valendo-se do que normalizamos culturalmente, ou seja, nossos hábitos de consumo, a engenharia zootécnica a transformou em um processo entrópico acelerado voltado para a produção de cadáveres. A vida não é mais o fim, é um meio desperdiçável para se chegar à morte-mercadoria. O animal se torna um ser-para-a-morte de uma forma tão literal e industrial que Heidegger jamais poderia ter imaginado.
Enfim, o poder não está “lá fora”, na indústria. Está “aqui dentro”, na teia de significados que tecemos todos os dias. E é nela que devemos trabalhar.
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