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Deputado critica campanha internacional Million Dollar Vegan, mas falha nos argumentos

“Sou contra campanhas como essa, que faz um desafio, até mesmo imoral, ao chefe da Igreja” (Fotos: Divulgação)

Defensor dos agropecuaristas, o deputado federal paranaense Sérgio Souza (MDB) criticou a campanha internacional The Million Dollar Vegan, que convidou o Papa Francisco a experimentar uma dieta livre de alimentos de origem animal durante a Quaresma.

Caso tivesse aceitado o convite, o papa poderia escolher uma instituição de caridade para receber um milhão de dólares. Souza, que se coloca como católico praticante, definiu o convite como “uma investida de militância política pelo veganismo”.

O deputado disse na tribuna da câmara que a agropecuária brasileira movimenta 600 bilhões de dólares por ano, e desse total 200 bilhões são da pecuária. Em seguida, citou uma estimativa da ONU que aponta que em 2050 a população mundial deve consumir 50% mais alimentos:

“O Brasil terá a responsabilidade de produzir a metade disso.” Sérgio Souza ignora que não há relação entre a produção de carne no Brasil ou no mundo com a redução da fome ou miséria. Muito pelo contrário, é a produção vegetal que surge como alternativa mais viável economicamente.

Afinal, há menor demanda de recursos, diferente da produção de carne em que você necessita de mais terras, grandes quantidades de água e ainda alimenta animais com vegetais para então matá-los e consumir suas carnes. Para quem pensa no futuro, não seria mais fácil e mais benéfico se alimentar diretamente de vegetais?

E o deputado continuou seu discurso: “Não sou contra o veganismo ou qualquer ativismo para uma alimentação mais saudável. Mas sou contra campanhas como essa, que faz um desafio, até mesmo imoral, ao chefe da Igreja.”

Se preocupar com o planeta, com o verdadeiro bem-estar animal, é imoral? Onde está o desrespeito ao fazer um convite amistoso a uma autoridade? Não houve nenhum tipo de presunção ou imposição. E ainda assim chamou a atenção de muita gente, inclusive do próprio deputado.

Outro problema no discurso de Sérgio Souza é que ele ignora também que a ONU aponta falhas no sistema agropecuário e reconhece que a produção de carnes, ovos e laticínios já gera um impacto ambiental bastante expressivo. Então como isso poderia ser sustentável em longo prazo, ou seja, até 2050?

No ano passado, um estudo liderado pelo pesquisador Joseph Poore, da Universidade de Oxford, e publicado na revista Science, analisou dados de 40 mil fazendas que produzem 40 produtos agrícolas em 119 países. A produção de um copo de leite de vaca gera até três vezes mais emissões de gases do efeito estufa do que a produção de um copo de leite de origem vegetal.

O estudo também comparou o impacto da produção de carne bovina com a de vegetais e revelou que até mesmo a carne orgânica pode requerer 36 vezes mais terra e gerar seis vezes mais emissões de gases do efeito estufa do que a produção de ervilhas.

Agora imagine o que isso pode representar daqui 50 anos se discursos como o do deputado Sérgio Souza continuarem ignorando a realidade. Ou seja, que a produção de alimentos de origem animal não é mais sustentável do que a produção de vegetais, tanto se tratando de desperdício de recursos quanto de ocupação de terras – o que também tem favorecido cada vez mais o desmatamento. Sendo assim, que tipo de alimentação devemos adotar até 2050?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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