Categorias: Opinião

É justificável desmontar vidas para gerar produtos?

Foto: Amy Jones/Moving Animals

A produção de alimentos de origem animal, que não consiste apenas em partes de animais, também pode ser interpretada como um processo violento e irreversível de desmontagem da vida não humana. Afinal, é da destituição de partes e capacidades que surgem produtos, comercializados como comestíveis ou não.

Sem dúvida, há um princípio, meio e fim, porém, o princípio nunca é distante do fim, e o meio é etapa de acentuação da exploração, que também é marcado por um tipo de “ápice”.

Sem a eficiência produtiva, o animal é considerado desinteressante, mas o processo de desmontagem de sua vida não termina. Muito pelo contrário, porque a ineficiência também garante a aceleração do desmantelamento.

Isso começa no início da vida do animal, porque o seu desenvolvimento também é sua involução, já que a partir disso a exploração passa por intensificação – quando o animal é classificado como apto para finalidades desconectadas de suas imanências e interesses.

O desmantelamento é processo comum por efeito de trivialização e fortalecido pela crença de que “se a maioria o endossa, por que eu faria diferente?” Mas a ratificação de uma maioria deve balizar nossa consciência e poder de decisão? Se sobre isso há princípios e fins explicitamente arbitrários.

Um animal, por exemplo, chegar a um momento em que torna-se incapaz de gerar com “eficiência” algo que chamam de “produto” também é consequência dessa desmontagem que envolve variáveis impactos físicos e emocionais.

A partir dessa incapacidade, que é também fator de condenação, o animal, já em processo de desmontagem, é encaminhado para o desmantelamento final, quando é privado do próprio corpo, que já era matéria viva controlada.

Muitos animais são criados para a desmontagem final, e começam a ser desmontados desde cedo, por meio de imposições e uma rotina que pode ser chamada de “ensaio de uma não vida”.

Enfim, há animais sendo desmantelados o tempo todo, mas quantos observam essa violenta e irreversível desmontagem para além do que veem como uma consideração de interesse de consumo?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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