“É justo tratar humanos como animais?” É uma questão que qualquer pessoa já ouviu em algum lugar. Muitos já disseram isso e continuam dizendo. A primeira pergunta a ser feita é: “O que é ser tratado como animal?” Considerando que somos animais, isso é sobre ser tratado como outros animais. Ou seja, os animais que não somos e a exclusão que fazemos de nós mesmos em relação ao sentido de ser animal.
Normalmente isso é dito sem muita reflexão, apenas considerando que não devemos tratar humanos como animais (outros), porque determinados tratamentos cabem somente a outros animais, de acordo com seus usos e interesses humanos. Essa questão também pode ser interpretada como um endosso ao tratamento aos outros animais – um tratamento que não queremos para nós.
Assim é como dizer também que se o outro animal passa por uma situação que nenhum humano deveria passar é “somente” porque ele é esse “outro animal”. Em denúncias de maus-tratos e exploração envolvendo humanos, até mesmo em julgamentos, é bem comum a referência a ser “tratado como animal”, como sendo “da pior forma possível”, visando atrair reprovação.
Ao admitir isso, não admite-se também que há um mau tratamento de outros animais? Se há algo que um humano não deveria experimentar, porque é reprovável pelo mal que o atinge, por que outros animais devem? Apenas porque são de outras espécies?
Ninguém diria, em crítica, que há humanos sendo tratados como animais se o objetivo é uma reprovação e usando como referência que os animais pensados nessa observação vivem uma boa realidade.
Toda a construção em torno da ideia de “ser tratado como animal” deveria ser avaliada sob a perspectiva de que rejeitar o “tratamento não humano ao humano” é reconhecer o especismo nas nossas relações e não combatê-lo, e sim somente usá-lo como referência para reprovar o que impacta negativamente ao ser humano.
Há uma normalização do mau tratamento aos animais nesse questionamento, porque se o mau é somente aquilo que imposto ao animal não pode ser imposto ao ser humano é anular a consideração de consequência sobre o não humano, embora a crítica se sustente no que é, por referência, não humano.
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