Categorias: Opinião

E o custo de um produto de origem animal para o animal?

Foto: We Animals

Se olhamos no supermercado o preço de um produto de origem animal, podemos julgar se é um valor adequado ou não – se é caro, barato ou aceitável. A avaliação do produto resume-se ao valor monetário, ao custo-benefício. Podemos comprar? Devemos comprar?

O poder e o dever transitam pelo interesse conjugado à vontade, às predileções. O poder é sobre a condição financeira e o dever sobre o condicionamento cultural. Porque o dever estimula a percepção da necessidade que influencia a vontade e evoca o aperfeiçoamento do poder.

Mas o que é esse poder e dever se além da percepção unilateral e monetária de valor? O que é o custo-benefício? Se removo a etiqueta de preço e questiono sobre o custo, o que será citado?

O custo resume-se a quem nas etapas das chamadas cadeias de produção, processamento e comercialização visa lucro e, portanto, repassa seus custos aos consumidores? Não há outro custo? É somente sobre isso?

E se questiono sobre o custo para o animal não humano de quem originou-se um produto? Exploração é o primeiro custo não humano que, por interesse primário ou não, termina em morte. E, resultando nisso, a morte é o custo principal e final para o animal.

Mas o que a antecede? E as condições em que esse animal viveu? E a separação parental? E as mutilações e marcações? Que tipo de espaço foi-lhe oferecido? Desenvolveu enfermidades, adoeceu? E estresse, ansiedade e comportamento neurótico?

Recebeu antibióticos que não receberia se não fosse submetido à exploração? Foi impedido de manifestar comportamentos naturais? E a viagem a caminho do matadouro? E a obrigação de transitar por espaços de morte? E o medo e o desespero? E a experiência de ser pendurado e degolado? Não são custos?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

1 semana ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

2 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

3 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

4 semanas ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

2 meses ago