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Em defesa das gaiolas vazias

Foto: Pixabay

No livro “Breakfast at Tiffany’s”, de Truman Capote, publicado no Brasil como “Bonequinha de Luxo”, há um momento em que Holly diz que não aguenta ver bicho nenhum numa gaiola. Para ela, não são apenas os humanos que não nasceram para a prisão.

É por prezar tanto pela própria liberdade, basta considerarmos sua personalidade na história, que Holly tem um olhar contrário a uma vida confinada em uma gaiola, o que para ela é sempre uma crueldade, não importando quem seja o animal.

Um dia, quando estão perto de um antiquário, Fred mostra a ela uma gaiola palaciana que ele tanto deseja. “Fomos até lá para vê-la.” Embora tenha gostado do aspecto diferenciado do objeto, Holly diz: “Mas ainda é uma gaiola.”

Para Holly, a gaiola sempre evoca a prisão. Naquele formato, é um objeto que existe para tornar miserável a vida dos animais. O próprio sentido da gaiola surge condicionado a essa realidade e intenção. Afinal, a gaiola também é simbólica da privação.

No entanto, ela percebe que Fred tem um desejo pela gaiola em desconexão com um mal a ser imposto aos animais, mesmo que a gaiola comumente não exista para o fim defendido por Fred; já que a gaiola tem um fim utilitário e raramente tende a ser vista como um fim meramente estético ou um adorno, enfim, um item de apreciação em si.

Com isso, Fred não tendo dinheiro para a compra da gaiola, Holly o presenteia, sem avisá-lo, mas não sem deixar de defender que se gaiolas devem existir, que existam para que mantenham-se vazias:

“[Um presente de Natal – grifo meu] Em cima da cama e enfeitada com fita vermelha, a linda gaiola de passarinho. ‘Mas, Holly! Que absurdo!’ ‘Concordo de cabo a rabo; mas achei que você queria.’ ‘Mas custava tão caro!’ Ela deu de ombros. ‘Uns troquinhos a mais no toalete. Mas prometa, prometa que nunca vai meter uma coisa viva aí dentro’.”

É notório que se o absurdo para Fred é em relação ao preço, para Holly, num tom que não deixa de ser irônico, é o fato da sua estima por Fred levá-la ao “absurdo” de comprar uma gaiola, algo que provavelmente ela nunca antes pensou em fazer, mesmo que a finalidade não fosse prender animais.

Ademais, Se Fred vê beleza na gaiola, o que ele deixa claro o tempo todo que é o que justifica seu interesse, essa beleza desapareceria para Holly no momento em que um animal estivesse lá dentro. Pode parecer contraditório, considerando a finalidade da gaiola, mas não deixa de evocar um interesse de que quem sabe um dia restem somente gaiolas vazias, pelo menos vazias de animais.

Referência

CAPOTE, T. Bonequinha de Luxo. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 152 p.

Leia também “Animais não devem viver em gaiolas“,  Por que crianças que admiram aves comem aves?” e “Ninguém precisa de travesseiro com penas de ganso

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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