Categorias: Opinião

É justo ter empatia por um animal em uma situação e não em outra?

E se o mesmo animal estivesse pendurado não em uma fiação e sim por uma corrente no matadouro?

É justo ter empatia por um animal em uma situação que consideramos “atípica”, mas não em situações consideradas “típicas”? Uma imagem que permite problematizar isso é a de uma ovelha morta e presa a uma fiação em Muçum (RS).

O lamento pelo fim dessa ovelha não é incomum, e comove também aqueles que participam da exploração animal por meio do consumo. Mas não pode-se dizer que o lamento é pelo fim, mas pelo tipo de fim.

Afinal, e se a ovelha estivesse pendurada não em uma fiação e sim por uma corrente no matadouro? O incômodo seria o mesmo? Quem pode garantir que essa ovelha sofreu mais com esse fim do que sofreria em ser abatida?

Se há pesar também pelo que aconteceu com a ovelha, pode ser considerado pelo fim da ovelha se não fazemos oposição à exploração animal? A realidade considerada chocante desse animal comove porque se deparar com notícias de ovinos presos à fiação em decorrência de intempéries não é comum nem normalizável.

Porque isso é entendido como “o não lugar para morrer”, o “espaço inapropriado”, portanto “trágico”, que escapa ao comum do que é determinado pelo ser humano. Mas e se a notícia fosse sobre a quantidade de ovinos abatidos este ano?

Não seria surpresa se a maioria dos comentários evocasse um “sentimento de conquista” em relação ao “setor ovinocultor”, mesmo quando isso é reprodução de algo que não os beneficia, que é resultado de uma ideia de “abstração econômica”, em que “mais” leva à simplista conclusão de “melhor”, sem ponderar todas as consequências para os envolvidos.

Por que não pensar também na condição da ovelha como de “matriz reprodutora para obtenção de cordeiros”, que é “preferencial” em relação à carne ovina?

Logo lamentar também a morte de uma ovelha presa à fiação deveria fazer-nos ir além do que é pontual e questionar o que vive a ovelha e para que vive a ovelha na esteira da instrumentalização e produtificação – reprodução, lã, carne…

Deveríamos pensar não apenas na ovelha, mas em todos os animais sobre os quais lamentamos por um “fim atípico”, mas que não lamentamos pelo “fim típico”, imposto pela violência institucionalizada maiormente apoiada.

Leia também “O que você sabe sobre a exploração de ovelhas e carneiros?”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • É justo estar com o animal só quando as circunstâncias estão boas?
    Agora quando tem uma enchente abandonam os animais em correntes, em casa?

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