Categorias: Opinião

É errado sacrificar animais, mas não é errado comê-los?

Fotos: HSI

Há uma campanha internacional contra a realização do Gadhimai em Bariyarpur, no Nepal, na primeira quinzena de dezembro. No festival sacrificial realizado a cada cinco anos, milhares de animais são mortos. Quando somos contra a matança de animais, independentemente de motivação, é coerente reprová-lo.

Por outro lado, é incoerente quando pessoas de outros países condenam esse festival (como se a barbárie estivesse somente nesse festival), mas não o que ocorre nos matadouros porque não têm interesse em mudar seus hábitos que financiam a mortandade de animais.

Só a quantidade de animais mortos para consumo em algumas horas no Brasil já supera em várias vezes o número de animais mortos durante todo esse festival no Nepal que é considerado o maior de “sacrifício ritual”. É só olhar pra lá e não pra cá?

Classificar como inaceitável alguém matar animais a céu aberto, mas não a matança institucionalizada e diariamente financiada, é contraditório. O interesse de um animal em não morrer no Gadhimai não é diferente do interesse de um animal que estão degolando agora mesmo no matadouro mais próximo de nós. Nenhum animal quer ser morto, independentemente de qual seja nossa motivação.

O problema é que existe também uma percepção estética sobre isso que envolve o local em que o animal é morto e como ele é morto. A reprovação quando pontual ou por excepcionalidade é problemática porque é como dizer que devemos repudiar não o animal ser morto e sim como e para qual finalidade ele está sendo morto. Mas se a base de todas as mortes que cito como reprováveis é a arbitrariedade, qual delas deve ser aceitável?

Claro que se considero o que é importante para o animal, a resposta é nenhuma. Dizer que é horrível o que ocorre no Gadhimai torna bonito ou não horrível o que ocorre no matadouro? A normalização das violências contra os animais possui a mesma raiz, o especismo.

Leia também: “Como o especismo é cruel“, “Lei do mais forte”, uma mentira usada também para favorecer o especismo” e “Richard D. Ryder, o psicólogo que criou o termo “especismo”.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • David, o documentário Christspiracy já se encontra disponível legendado na própria plataforma do filme. Melhor documentário vegano do ano!

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