Hoje, muitas pesquisas apontam a pecuária como não única, mas principal causa do desmatamento na Amazônia e em outros biomas. E nem poderia ser diferente, já que das atividades agrícolas é a que ocupa maior extensão de áreas no Brasil.
Ainda assim, a população brasileira em geral ainda dedica pouca atenção à gravidade da expansão da agropecuária no país, acreditando que é boa notícia quando o Brasil atinge recordes de consumo e exportação de carne e de outros produtos de origem animal associados à derrubada de floresta, excessivo uso de água, altas emissões de carbono, que em vez de diminuir estão aumentando, e alto volume de descarte de resíduos animais.
No final de setembro, por exemplo, ruralistas comemoraram a notícia de que o Brasil atingiu em 2020 um valor de produção de R$ 75,45 bilhões em relação aos principais produtos pecuários. O que significa aumento de 27,1%. Maior lucro quando falamos em agropecuária também significa maior impacto ambiental.
Considerando a quantidade de animais criados para consumo, é evidente que estamos a caminho de um futuro em que a expansão da indústria da carne, por exemplo, só será possível às custas de mais desmatamento e maior demanda de recursos naturais. E infelizmente ainda há quem acredite que isso não é muito relevante, esquecendo que impacto ambiental também significa impacto na saúde humana.
Exemplo da necessidade de uma mudança de consciência em relação ao assunto é destacado em um estudo publicado no dia 1° deste mês na revista científica Nature pelos pesquisadores Carlos Nobre, Paulo Nobre, Marcus Bottino e Beatriz Fátima Alves de Oliveira.
Com base em um experimento de modelagem climática projetado para avaliar os efeitos da savanização da Amazônia e cenários de mudanças climáticas globais sobre o estresse térmico, eles concluíram que o desmatamento em grande escala aumentará muito o risco de exposição ao calor extremo em escalas locais e regionais.
“Esses níveis de calor, que serão fisiologicamente intoleráveis para o corpo humano, afetarão profundamente as regiões altamente vulneráveis. As condições extremas de calor induzidas pelo desmatamento podem ter efeitos negativos e significativamente duradouros na saúde humana, incluindo trabalhabilidade diminuída e aumento da mortalidade relacionada ao calor e associada a doenças cardiovasculares, efeitos psicológicos e doenças renais agudas”, frisam os pesquisadores.
O estudo destaca que no Brasil os efeitos combinados do desmatamento e das mudanças climáticas já estão sendo relatados a partir de dados observacionais com base em valores de aquecimento mais extremos relatados em grandes áreas desmatadas.
“Além disso, o aumento da exposição ao estresse térmico pode impactar várias áreas da economia por meio de efeitos na produtividade do trabalho, uma vez que os trabalhadores estarão expostos a condições térmicas fatais. No Brasil, os trabalhadores que atuam ao ar livre já estão expostos ao estresse térmico, e as projeções indicam aumento da exposição a alto risco nas próximas décadas.”
A publicação alerta que o aumento de 1,5 ° C na temperatura média global pode representar um impacto significativa na redução da jornada de trabalho até 2030, atingindo pelo menos 850 mil empregos em tempo integral, especialmente nos setores agrícola e de construção.
“Particularmente na agricultura, o alto risco associado ao trabalho intenso e à sobrecarga térmica já foi observado entre os cortadores de cana-de-açúcar brasileiros. Em nossas projeções, a combinação de mudança no uso da terra e aquecimento global pode ampliar ainda mais os riscos ocupacionais”, concluem.
O estudo “Deforestation and climate change are projected to increase heat stress risk in the Brazilian Amazon” reforça que a expansão da agropecuária, incêndios florestais – também comumente associado à primeira – e atividades de mineração são fatores que estão acelerando a savanização da Amazônia. E como consequência favorecem os efeitos prejudiciais das mudanças climáticas na contramão do bem-estar, o que eleva a demanda por serviços de saúde e proteção social.
“Os efeitos esperados do estresse térmico na saúde humana dependem de interações entre múltiplos fatores, incluindo a gravidade e a frequência desses eventos, bem como a vulnerabilidade biológica e social das populações expostas”, explicam.
O resultado do estudo sugere que a princípio os efeitos do desmatamento sobre o estresse térmico afetarão mais severamente a região amazônica, que abriga desenvolvimentos humanos precários (com relação à saúde, infraestrutura e renda). Além disso, aponta que a gravidade desses efeitos é aumentada pela capacidade limitada dessas regiões de responder aos desafios de saúde induzidos pelos efeitos combinados das mudanças climáticas e do desmatamento.
“Durante a pandemia de covid-19, os primeiros serviços de saúde a entrarem em colapso no Brasil foram na região amazônica, enfatizando os efeitos sinérgicos dos estressores à saúde e a falta de infraestrutura na região”, acrescentam.
E concluem: “Nosso estudo revela que os efeitos combinados da savanização da Amazônia e das mudanças climáticas estão significativamente associados às ameaças à saúde e ao bem-estar humanos, enfatizando a necessidade urgente de medidas coordenadas para evitar efeitos negativos sobre as populações vulneráveis.”
Saiba Mais
São Félix do Xingu (PA), na região amazônica, tem o maior rebanho de gado do Brasil. Além disso, é o segundo município com maior recorde de desmatamento em 2020, perdendo apenas para Altamira (PA).
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