Um caminhão que transportava frangos para o abate tombou. Alguém comentou que “felizmente ninguém se feriu”. Outro disse que “parte da carga ficou espalhada pela rodovia”. São duas frases que atraíram minha atenção.
Quem é ninguém? Observei imagens de aves feridas e mortas nas caixas ou perto delas. Esqueceram dos frangos? Por que usar o advérbio de modo “felizmente” se frangos morreram? Ninguém se feriu? O que é o frango?
Frango é um animal de vida não reconhecida e por isso sua morte é inconsiderada? Sua finalidade determina a ausência de referência se vítima de acidente? “Vítima” foi uma palavra que não encontrei sobre frangos caídos na rodovia.
Não é o frango uma vítima? Parte deles estava esmagada sob caixas amarelas. Outros caíram mais longe. O termo “carga”, pequeno e generalizante, cinco letras e duas sílabas para tantos indivíduos, sem distinção, também é usado sobre produtos que nunca tiveram vida.
Pode-se pensar em qualquer coisa que possa ser vendida e carregada em um caminhão. É isso? Frango é uma coisa e coisas não têm vida se coisificamos vidas?
Olhei de novo as imagens dos frangos na rodovia e considerei a distância entre viver e morrer. Apenas algumas centenas de metros separavam os frangos que morreram antes dos que morreram depois. Matadouro não era longe.
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