Categorias: Opinião

Há animais que devem ser protegidos e outros não?

Uma reflexão sobre o termo “espécies protegidas”

Quando leio sobre “espécies protegidas”, penso em como esse termo é favorável também a uma exclusão. Quero dizer, se dizemos que há espécies protegidas de animais é porque há espécies não protegidas ou que não serão protegidas.

Claro que uma espécie ser classificada como protegida não significa também que “a proteção” seja o suficiente para impedir danos à espécie, mas sim que há um interesse institucionalizado, legal, nessa proteção.

Cada país tem suas “espécies protegidas”, e não imagino que seja novidade para ninguém que isso não estende-se a todas as espécies que podem experimentar dor e sofrer. Afinal, estamos sempre selecionando quais espécies a serem protegidas com base nos interesses que consideramos prioritários – “a relevância de cada espécie”.

No Brasil, por exemplo, a afirmação de proteger uma espécie vem sempre acompanhada do argumento de manter “o meio ambiente ecologicamente equilibrado”, com base no artigo 225 do capítulo VI, da Constituição Federal.

Isso não afasta a conclusão de que não é sobre o animal, é sobre o “meio ambiente”. É como dizer que se matar esse animal não afeta o “meio ambiente”, então devemos matá-lo. Mesmo que isso não ocorra, a percepção não deixa de externar um problema.

Animais silvestres continuam sendo pensados não como indivíduos, mas como parte de um sistema, e que sua importância não pode ser pensada em dissociação ao sistema – como se o animal não tivesse o valor em si, mas na dimensão de uma completude numérica ecológica.

Alguém pode dizer que isso é desconsiderar que devemos “proteger as espécies que hoje são menos numerosas”. Não rejeito essa consideração, mas esses discursos sempre fazem parecer que “espécies mais numerosas” podem ser mortas. Ou seja, é o critério numérico que leva à ideia do salvaguardar principalmente algumas e incomodar-se menos com a morte de outras.

Transmite também uma ideia de que uma ausência entre muitos é uma ausência menor em relação a uma ausência entre não muitos. Mas a arbitrária ausência para o animal escolhido para ser ausente é experimentada como menor se a ausência é sua morte?

Mesmo em relação aos animais silvestres, ainda há um viés especista, se esse viés ignora a experiência do animal na consideração de não ser afetado negativamente pela ação humana.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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