Imagine que matemos animais para consumo sem impor-lhes qualquer dor, que há um meio de arrancar-lhes a vida sem que nada sintam no fim, ainda que possam enxergá-lo. Afinal, só poderíamos impedir isso se lhes arrancássemos os olhos antes.
Sabemos o que fazemos com eles, que impedimos suas reações, que não estão gemendo, agonizando, externalizando sonoramente ou corporalmente qualquer possível inquietude porque abstraímos essa capacidade. É correto matá-los apenas porque queremos e julgamos que podemos?
Estaríamos a enganá-los para arrancarmos deles tudo que desejamos a partir de seus fins. Então diríamos que não sofreram, e teríamos orgulho disso, embora suas vidas em nada se diferenciassem de muitos outros animais, a não ser pelo fato de que “gritaríamos ao mundo que estes estão 100% livre de sofrimento” – pelo menos no processo de abate.
A vida desses animais não viria de um esteio de domínio, de controle sobre suas vidas? Não viveriam tão pouco quanto os outros? Não seriam vítimas de nossas imposições? E a quem serviria esse propósito, de “dor ausente”, à consciência humana ou aos animais que esfolamos? Não seria mais um argumento para ampliação da subjugação? Para enviarmos mais animais para a sangria?
Promoveríamos o “abate sem dor” em pretensa consideração aos abatidos ou aos nossos interesses? Há maneira justa de matar quem não anseia pela morte? A questão da dor é agravante, mas sua hipotética ausência anula a gravidade da massificação da matança ou da própria individualidade destruída para a produtificação da carne?
Sabemos que matamos animais que articulam e desenvolvem suas estruturas sociais, que são criaturas de características coletivas e particulares, que reagem à vida, ao ambiente, as ações que envolvem sua fisicalidade ou que abrandam ou intensificam suas emoções e sentimentos.
Um animal saudável e morto pela primazia de nossos interesses alimentícios, independente das especificidades do sistema que arranca a vida de sua carne, era um ser vazio em relação ao sentir ou nós que roubamos-lhes mais uma vez para triunfo de nossa conveniência?
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