Hoje completa uma semana que uma cadelinha foi envenenada e espancada por um segurança do Carrefour em Osasco, na Região Metropolitana de São Paulo. Imagens das câmeras de segurança mostram o exato momento em que um segurança persegue o animal, que tenta se esconder entre as pernas dos transeuntes, mas continua sendo perseguido. Mais adiante, a cadelinha é golpeada com algo que parece um tubo de ferro. Pela reação do segurança, “nada de mais”, já que ela simplesmente retorna ao seu posto.
O animal passou despercebido. Será que alguém poderia ter feito oposição ou o questionado? Alguém reagiu quando ela foi golpeado? As câmeras “dizem” que não. Será que isso é mais um sintoma da indiferença, da banalização da violência? Disfunção narcotizante. Ou apenas falta de atenção? Ninguém viu?
Algumas pessoas continuam dizendo que a vida de um pequeno animal que já não existe não vale mais do que a de um ser humano. Qual é a base dessa rivalidade? Talvez desconsideração, ausência de empatia e mesmo desprezo pelo que não é humano? Há espaço pra todos. O animal não era ameaça ao homem, e mesmo que fosse ainda assim isso não seria motivo para matá-lo.
O Carrefour não levou o episódio a sério até que a situação ganhou proporções inimagináveis. Com o passar dos dias, deixaram de reproduzir respostas automáticas e passaram a personalizá-las. Creio que não pelo cadelinha, mas pelo impacto que essa morte possa gerar economicamente. Afinal, se uma rede internacional de hipermercados realmente se importasse com a vida de um animal, teria se manifestado logo após o “assassinato” qualificado como “incidente”.
Mas todas as notícias e registros compartilhados por testemunhas levam a crer que a ação do segurança não foi apenas uma preocupação automatizada em se “livrar de um animal”, mas sim uma ordem de um superior que até então não foi identificado e provavelmente nem será. Como uma rede de hipermercados pode revelar tanto despreparo em lidar com situações tão simples e tão cotidianas?
Muitos animais entram diariamente em lojas, mercados, e ainda assim não é sempre que ouvimos falar de casos de cães assassinados em estabelecimentos comerciais. Infelizmente, animais abandonados em sua ingenuidade canina desejam uma proximidade indesejada pela malícia humana. O Carrefour não tem um estatuto que inclui orientações sobre como bem agir quando animais percorrem suas dependências?
Violentar? Matar? Com qual razão? O Brasil tem hoje mais de 30 milhões de animais abandonados. O que custaria a uma rede de hipermercados ter se antecipado há muito tempo em contribuir em minimizar a fome de alguns, como a cadelinha que buscava comida e empatia? O que custaria se solidarizar e não apenas lucrar? E como se não bastasse, ela não foi apenas espancada, mas antes envenenada.
A cadelinha era forte, sem dúvida, e tentou resistir, deixando rastros de sangue e muita vontade de não morrer. Mas a crueldade pode ser arrebatadora. Provavelmente morreu da mesma forma que nasceu – indesejada e desprezada. Tudo isso poderia ser evitado se alguém antes a tivesse abraçado, alimentado e a abrigado.
O episódio me trouxe lembranças da cadela Baleia de Graciliano Ramos. Mas a personagem de “Vidas Secas”, muito mais conscienciosa do que os racionais, teve família, foi amada antes de ser morta pela violência humana tocada pela virulência da miséria: “Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme.”
Segundo o Carrefour, o contrato foi rompido com a empresa de segurança que prestava serviços à unidade de Osasco, e o segurança acabou demitido. Em solidariedade aos animais abandonados, a rede diz que fará doações a ONGs de proteção animal. Ainda assim, muitas pessoas têm falado em boicote. Será que o Carrefour fará muitas promoções para combater esse protesto desencadeado pela displicência em relação ao que não é humano?
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