Categorias: Opinião

Já pensou no silêncio que impomos aos animais criados para consumo?

Foto: Ciclo Vivo

Você já pensou no silêncio que impomos aos animais criados para consumo? Tudo sobre suas vidas é um silêncio compulsório, porque o único som que deve ser ouvido vem da vontade humana, como determina o supremacismo.

Eles são trazidos ao mundo para serem silenciados. Afinal, a morte como objetivo final de lucro e consumo é imposição de silêncio, assim como a subjugação precedente. O viver não humano, que é breve quando alvo de consumo, é um exercício pré-imposto de silêncio.

Eu poderia tentar imaginar quantas vezes um animal passou por situações específicas de silenciamento em seus ciclos de vida, mas por que se esse estado de viver é em si um estado de ser silenciado?

Uma resistência, uma indisposição, um desinteresse ou qualquer manifestação contrária ao interesse humano é vencida pelo silenciamento, que é processo legitimado de rejeição a essas manifestações.

As emoções também são parte desse silêncio imperativo, que prevalece em forma de rejeição, de um não ouvir ou ignorar quem não somos. Penso no ouvir como um perceber e considerar, uma pluralidade em relação às ações e reações do outro como um ser.

E ser como estar não basta para não silenciar? Dias atrás, observei imagens de animais criados para consumo com cordas que impediam que abrissem a boca. Ou seja, um processo de literalidade do silenciar e uma reafirmação tão direta quanto simbólica de sua condição de silenciamento.

Um boi tinha manchas que não eram suas na cabeça e em outras partes do corpo, e a ponta da corda atravessava o centro de sua cabeça. Havia uma clara ação explícita do silenciar, que ampara e perpetua o dominar, mas não vi silêncio em seus olhos.

Com orelhas baixas, o animal mirava a câmera com seus olhos grandes e bem escuros. Poderiam dizer que ele não reclamava, e creio que diriam, baseando-se na ideia instrumentalista de que “animal faz o que foi criado para fazer”.

Mas como uma vida animal, que é uma vida complexa, pode ser reduzida a um estado de imposto silêncio se um animal não é feito de silêncio?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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