O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu o seu próprio recorde de abate de animais (IBGE) e de “produção de carne bovina, suína e de aves” (Conab). Em 2025, o país foi além e conseguiu ultrapassar os EUA, ao se tornar o país que mais abate bovinos no mundo.
Embora as exportações de carne estejam crescendo, a maior parte da carne produzida no Brasil é consumida no mercado interno (75%). De acordo com um levantamento da Kantar Worldpanel, mesmo com um aumento médio de 18% no preço da carne no primeiro trimestre de 2025, isso não impediu um crescimento de 9% do consumo de carne no país.
Além disso, se em 2025 o consumo de carne chegou a 93% dos lares brasileiros, isso revela também um aumento em comparação a 2024, que era de 88,49% – expondo um cenário médio de alto e mais abrangente consumo interno de carne.
O que explica como o preço não é impeditivo para o aumento do consumo de carne é também a sua ubiquidade, ou seja, a diversidade de preços e “cortes” que permite chegar a todas as classes sociais. Portanto, esse crescimento é um reflexo do que reconhecemos a partir do que é proposto pelo sociólogo Pierre Bourdieu como “habitus” – disposições culturais tão profundamente incorporadas que resistem a variações de preço e persistem mesmo quando desafiadas por tentativas marginais de mudança.
E mais, reflete a hegemonia cultural da carne e o fato de ela ocupar não apenas uma posição ainda intocada por qualquer tentativa de contra-hegemonia como também prosperar em um cenário onde essa realidade descortina qualquer ilusão de “vitória” em outra direção. Enfim, a penetração do especismo nas relações materiais está avançando, não recuando.
Isso expõe a fragilidade de discursos que promovem uma narrativa de “êxito” contra um senso comum que segue mais forte do que nunca. Essa realidade evidencia também que não há uma guerra de posição em andamento, como sugerido pelo filósofo e teórico Antonio Gramsci, para disputar verdadeiramente o senso comum. Se houvesse, o especismo não estaria ocupando mais espaços e envolvendo aquilo que é tão representativo da nossa arbitrária relação com os animais – a alimentação.
Se em 2025 o Brasil superou os EUA ao produzir 12,3 milhões de toneladas de carne bovina, resultantes do abate de 42,5 milhões de bovinos, com base em dados do IBGE, outro recorde garantido pelo Brasil foi o de abate de fêmeas – que também superou o abate de machos pela primeira vez em 2025, como ocorreu no primeiro trimestre.
Isso tem relação direta com o forte descarte de vacas reduzidas “a matrizes” e “leiteiras” de “baixa produtividade”. Ou seja, o recorde em 2025 é indissociável do destino imposto a vacas que já não são consideradas “úteis” para produção de leite ou como reprodutoras.
Esse aumento também reflete que se há mais vacas sendo abatidas é porque há mais animais sendo explorados na produção leiteira. Portanto, se há mais fêmeas sendo mortas é porque a cadeia de produção leiteira nunca gerou tanto impacto como atualmente – algo que reflete também o crescimento da própria indústria e sua inserção como parte de uma hegemonia cultural.
Não podemos esquecer também que essas vacas só são abatidas como parte de um ciclo de substituição. Logo, há outras e até mais chegando para ocupar esse “vazio” que nunca deixa de ser alarmantemente transitório porque ecoa sua própria expansão.
Estimamos, com base em dados do IBGE, que 4,85 milhões de vacas foram mortas somente no primeiro trimestre de 2025. O movimento é caracterizado como uma “liquidação de fêmeas” em que pecuaristas enviam “vacas e novilhas vazias” para o abate porque já não é economicamente vantajoso mantê-las vivas.
Além disso, o descarte de vacas leiteiras de menor potencial genético tem ocorrido com ainda mais frequência. Nesses casos, o animal de menor produtividade é enviado para o abate também sob a justificativa de “ajudar a elevar o peso das carcaças”.
Nesse contexto, um animal que se aproxima dos cinco anos já é considerado de “idade avançada” e “descartável”. Problemas reprodutivos ou baixa fertilidade, que podem surgir em animais bem jovens, também são tratados como motivos para o “descarte”.
Esse processo é tratado nesse meio como parte de um ciclo de rotatividade em que tudo gira em torno da obtenção de retorno econômico. No entanto, é uma busca que só existe em consequência, claro, de demandas de consumo de produtos animais.
Vale lembrar que só o abate de bovinos no Brasil cresceu 8,2% em 2025 em comparação com 2024. A diferença é ainda maior em relação a 2023 – 25%. O abate de suínos e frangos também registrou novos recordes trimestrais e sucessivos em 2025, segundo o IBGE – como o abate de 15,81 milhões de suínos em apenas 92 dias no terceiro trimestre de 2025 e o abate de 1,69 bilhão de frangos no mesmo período. Além disso, segundo a Embrapa, houve um aumento recorde de 7,2% na produção de leite no Brasil em 2025.
Enfim, são informações que chamam a atenção para o fato de que a indústria animal segue soberana na manutenção do especismo enquanto não houver um profundo e amplo esforço de mudança cultural nas relações de consumo.
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