Categorias: Opinião

Marcar um animal é dizer que ele é um produto

Foto: Andrew Skowron

Um animal nos primeiros dias de vida e criado para consumo é agarrado e tem uma parte do dorso tingida com uma cor chamativa, que torne-o distinguível. Mas a distinção não é sobre ele e seus semelhantes, porque seus semelhantes também são tingidos.

Então no mesmo espaço todos de sua faixa etária são tingidos como parte de um processo de “sistematização” e “identificação” em uma cadeia de reificação. O uso da tinta no corpo é a reafirmação de seu estado de “não ser”, independente se é uma criatura saudável e apta a manifestar contrariedade a essa imposição.

Ninguém pode atribuir uniformidade às suas reações, porque são e sempre serão variáveis, partindo da formação e desenvolvimento das individualidades. Mas, independente de maior ou menor resistência, a tinta no corpo é também um tipo de “ratificação de propriedade” e usada para definir o “que se é”, “não quem é”, e “quando se é” como parte desse processo.

A marcação pode parecer “inofensiva”, embora o pensamento possa vaguear por considerações de toxicidade. Afinal, a marcação de um animal em um processo de exploração da vida para exploração da morte é vista como mais incômoda quando arrancam-lhe sangue ou resulta em mutilação.

Isso ocorre porque muitas de nossas associações de oposição nesses casos são influenciadas pela crença no que assimilamos como de “maior impacto físico” pelo “maior impacto visual”. Mas quem pode negar que independente do tipo de marcação utilizada, e independente da etapa da vida de um animal, é uma prática de mercadorização não humana?

Porque evoca a serialização de vidas, sua produtificação e as determinações numéricas que reforçam o simbolismo do individual-coletivo de “não vidas” reafirmadas pelo estado transitório de propriedade.

E animais, com suas (impostas) marcações variáveis que os acompanham por toda a breve vida, são tratados como “propriedades de transição”, porque as “posses”, que são domínios sobre seus corpos, mudam, da vida para a morte e da morte para a mesa.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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