No momento em que os olhos do mundo se voltam para a Amazônia, cuja taxa de desmatamento no último mês de março foi a maior em uma década, uma carta na revista Nature Climate Change assinada por Luis Fernando Guedes Pinto, diretor de Conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica, e Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil, reforça a importância de que a restauração da Mata Atlântica também seja inserida na agenda climática mundial.
A emergência climática e o necessário aumento da ambição para combater o aquecimento global passou a exigir não somente o fim do desmatamento, mas também a restauração de ecossistemas em grande escala como uma das mais importantes soluções baseadas na natureza.
Nesta que é a Década da ONU da Restauração de Ecossistemas (2021–2030), os autores ressaltam que, “no contexto da mitigação climática, é fundamental a conservação de florestas tropicais altamente ameaçadas e fragmentadas, portanto o caso da Mata Atlântica pode se tornar uma referência”. A carta foi publicada na quinta-feira (6), a pouco mais de duas semanas do Dia da Mata Atlântica, celebrado em 27 de maio.
“Interromper o desmatamento e restaurar ecossistemas são ações essenciais na luta contra as mudanças climáticas e para o sucesso da meta de 1,5ºC, estabelecida no Acordo de Paris”, escrevem os autores no periódico.
“Devido à extensão da sua cobertura florestal, bem como à atual taxa de desmatamento, o Brasil desempenha um papel central na mitigação climática e tem uma grande oportunidade de contribuir por meio da interrupção do desmatamento e da restauração dos seus biomas florestais”, avaliam.
“Nesse sentido, a Mata Atlântica é um dos ecossistemas globais com maior prioridade de restauração, considerando-se os benefícios na conservação da biodiversidade, na mitigação das mudanças climáticas e nos custos da restauração.”
O Brasil foi capaz de construir um caminho que reduziu o desmatamento entre os anos de 2004 e 2012, mas, nos últimos anos, as taxas voltaram a subir devido ao enfraquecimento do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) e às mudanças em diversas leis e regulamentações.
Na Mata Atlântica, que abriga 70% da população brasileira e responde por 80% da economia, a expansão agrícola em regiões específicas (Bahia, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina), a urbanização em cidades de médio e grande porte, a infraestrutura de turismo e a aquicultura em regiões costeiras têm sido grandes vetores de desflorestamento. Dessa forma, o bioma permanece ameaçado de extinção.
Hoje restam apenas 12,4% da vegetação original da Mata Atlântica – que se distribui por mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados (3,6 vezes a área da Alemanha). Além da proporção estar muito abaixo do limite mínimo aceitável para sua conservação, que é de 30%, o bioma restante se encontra restrito a espaços extremamente fragmentados (a maior parte não chega a 50 hectares) e ocupando, em 80% dos casos, terras privadas.
Na carta publicada na Nature Climate Change, Luis Fernando Guedes Pinto e Mauricio Voivodic frisam a importância da construção de um novo pacto ambiental e sugerem um mapa do caminho para a recuperação da Mata Atlântica.
“Um forte esforço para realizar a restauração florestal em larga escala e sob a fiscalização do Código Florestal, aumentar a proporção de áreas protegidas e implantar uma agenda de incentivos econômicos positiva e de novas políticas para combater a degradação florestal complementaria o atual roteiro para o sucesso das ações de conservação”, afirmam.
Eles mencionam o Planaveg, que planeja restaurar 12 milhões de hectares da Mata Atlântica, e o Pacto Mata Atlântica, cujo objetivo é recuperar 15 milhões até 2050. Além disso, entre 4,1 e 5,2 milhões de hectares de mata ciliar também devem ser restaurados para que estejam em conformidade com o Código Florestal.
Junto da Década da Restauração de Ecossistemas da ONU, iniciativas como o Desafio Bonn, que tem o objetivo global de restaurar 150 milhões de hectares de paisagens degradadas até 2020 e 350 milhões até 2030, oferecem as estruturas internacionais necessárias para conduzir iniciativas de conservação.
No entanto, segundo os autores, elas precisam ser complementadas com vontade política internacional, nacional e subnacional, além de investimentos do setor privado. “Restaurar a Mata Atlântica geraria benefícios não apenas para a população e a economia nacional, mas também para o planeta e a humanidade como um todo”, concluem.
Clique aqui para ler o artigo no site da Nature.
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