Matar um animal, uma criatura que não quer morrer em nosso desnecessário benefício, é uma incontestável arbitrariedade; uma facciosidade que parte de quem, por uma questão cultural, não vê nada de errado em subjugá-lo.
Não conheço história de animal que sentiu prazer em tornar-se alimento. Ainda que acontecesse em contexto fictício fundamentado na realidade, sabemos que até os animais considerados menos inteligentes não são tão tolos assim. Mesmo em um cenário ultrarromântico isso seria insidioso e baixo.
Ninguém nasce ansiando pela morte, nem aqueles que são mortos aos bilhões para consumo. Logo não há como desconsiderar que alimentar-se de animais significa nutrir-se da privação, padecimento e fim de seres vulneráveis. Os níveis são diversos. Pode haver barbárie ou não.
Mas não seria o anseio pela exploração e morte de um animal uma manifestação de barbárie? Muitos dizem em sua defesa que há métodos menos cruéis de matar animais, que podemos usurpar vidas que não nos pertencem sem a necessidade de excessiva violência.
Será que essa defesa volta-se à minimização do sofrimento animal ou funciona como um afago na consciência humana? Será que nos importamos com os animais ou com a ideia de sermos vistos como menos empáticos, insensíveis ou incivilizados? Temos ojeriza pela possibilidade de sermos vistos como bárbaros porque promovemos um suposto padrão de exemplar civilidade.
A ideia de uma morte romanesca em prol de seres humanos, logo de outra espécie, é quixotesca – para usar a sutileza de um eufemismo em relação ao antropocentrismo e especismo que esvaziam as consequências de nossas ações pelas conveniências de nossas omissões.
“Sou grato a este animal que morreu para minha nutrição”, há quem diga antes de uma refeição. Mas será que a sua nutrição depende da exploração e morte de uma criatura senciente? Um prazer com duração de minutos é equiparável ao valor de uma vida?
A expressão de um animal instantes antes da morte revela explicitamente o quanto ele não anseia por tal gratidão, já que mesmo quando os criamos e os submetemos a um nível visceral de condicionamento, isso não significa que eles veem-se como seres que existem para nos servir.
Afinal, servir ao ser humano não é uma característica natural de seres de outras espécies, mas somente uma consequência de séculos de condicionamento, agrilhoamento e subordinação forçada.
Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo:
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…
Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…
O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…
A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…
Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…