Se o veganismo é sobre libertar os animais da exploração humana, é difícil não reconhecer que o movimento vegano hoje não tem impacto na redução da exploração animal. Na verdade, há mais animais sendo explorados e mortos para fins de consumo. Os levantamentos que encontramos convergem para um aumento global do uso e consumo de animais.
Não faz muitos anos, se falava em 40, 50 ou 60 bilhões de animais terrestres sendo usados e mortos globalmente para a alimentação. Desde 2023, no entanto, se fala em mais de 80 bilhões – 85,4 bilhões, segundo levantamento da Faunalytics divulgado recentemente com base em dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). E esses dados, é preciso reforçar, não revelam apenas um padrão de não declínio, mas de constante aumento. Já a Humane World for Animals fala em 92,2 bilhões de animais.
E se quisermos ser mais específicos, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em 2024, a produção de carne bovina, suína e de aves no Brasil alcançou “o seu maior resultado” – superando 31,5 milhões de toneladas; com os brasileiros consumindo mais carne. Também em 2024, o Brasil bateu recorde de abate de animais (bovinos, frangos e suínos), segundo levantamento do IBGE – com aumento de 15,2% somente em relação aos bovinos. Houve recorde também na produção de ovos; chegando a um aumento de 10%. Todos esses dados externam uma eficácia negativa no que mais importa, impactar nos números da exploração e morte de animais.
Logo, o ponto não é a distância que existe da libertação animal, mas exatamente o fato de haver um horizonte oposto – de muito mais exploração, não menos. Isso deveria, no mínimo, motivar uma reflexão sobre o papel do movimento vegano. Para os animais, não importa o que se “comemora em relação com o veganismo” se não está impactando minimamente em sua realidade. E se viramos as costas para o que realmente conta para esses animais, então a atenção está na identidade humana e não na transformação da realidade deles – o que entra em conflito com o próprio sentido do veganismo.
Um movimento vegano que comemora o que cresce paralelo ao aumento da exploração animal, e isso é tratado como se a realidade estivesse sendo transformada, age na negação da própria realidade e desvia atenção dos problemas que devem ser combatidos; do que deve ser revisto. A métrica mais importante é aquela que impacta diretamente no viver de um animal, não aquelas que crescem paralelas a essa realidade.
Fazer o oposto é querer centrar o veganismo no ser humano, no ser vegano e não nos animais impactados por nossos interesses. E isso pode ocorrer de forma irrefletida, quando priorizamos o conforto das conquistas que nos agradam porque preferimos evitar o desconforto do que é mais importante e não estamos mudando nem minimamente.
É compreensível que as pessoas queiram comemorar pequenos avanços mesmo quando não estão mudando a realidade dos animais, mas isso também se torna um grande problema quando esse mecanismo deixa de ser um apoio e se torna a própria estratégia, substituindo a luta pela transformação real pelo conforto da validação interna.
Ademais, seria um equívoco ignorar que essa dinâmica é funcional para a exploração animal e, portanto, para uma não mudança estrutural de hábitos. Um movimento que celebra seu próprio “crescimento” dentro dos parâmetros por ele estabelecidos – focando menos nas vítimas animais e mais no pertencimento, na validação e na identidade humana de seus membros – é um movimento que, não sem razão, pode ser visto como domesticado e, portanto, não transformador.
Quando veganos comemoram símbolos de aceitação social ou vitórias de narrativa interna que não correspondem a uma redução mensurável da exploração, eles estão operando no registro do fim identitário. A cultura de bolha se fortalece onde a validação interna (menos importante) substitui o impacto externo (mais importante).
O foco na métrica de bolha, que é autorreferencial, opera de diferentes formas e a partir de diferentes lugares identitários que podem ter como ponto de partida um mesmo movimento – vegano. Isso pode criar diferentes ilusões e cada uma visando beneficiar a narrativa de um grupo na defesa de sua abordagem que não se converte em impacto realmente significativo no mundo real.
A guerra contra produtos também surge com foco fragilizado, porque o ataque a um símbolo (a marca considerada “impura”) pode soar mais importante do que desmontar a lógica cultural que sustenta toda a indústria – assim desviando energia. Do ponto de vista tanto da disputa pela hegemonia cultural (gramsciana) ou da teoria das mediações (Martín-Barbero), isso é deslocar o foco para o que menos importa em termos de transformações culturais. Afinal, concentrar energia em boicotes a marcas “impuras” pode ser catártico para a bolha, mas é taticamente frágil. Ignora que a indústria é um sintoma de uma cultura especista. Mesmo que fosse possível derrotar uma marca, não desmonta a lógica cultural que pode criar outras dez. É um deslocamento de energia da raiz para o ramo.
Isso ecoa também na chamada “paralisia purista”, em que a única ação permitida é aquela que não “contamina” a identidade do grupo, mesmo que seja inócua para os animais. Essas articulações também podem e são fortalecidas a partir de bolhas – onde se pode operar também a inclusão por exclusão.
A métrica do conforto identitário, que pode ser usada por grupos veganos que se pressupõem tão diferentes, é sempre mais fácil, mais imediata e mais gratificante para o ego do grupo ou do indivíduo. Ela oferece uma sensação de “estar do lado certo” ou de progresso sem o risco e a dificuldade da luta real. E hoje não há vertente do movimento vegano que não reproduza isso à sua maneira, com um recorte próprio.
Isso também impacta negativamente na capacidade em travar a guerra de posição cultural, algo que emprestamos de Gramsci na luta pela hegemonia cultural, e que é necessária para realmente impactar na realidade dos animais. Sem a disputa pelos sentidos que normalizam o uso de animais não há como transformar a realidade.
A disputa pelos sentidos é, por natureza, conflituosa, incômoda e desestabilizadora. Ela exige sair da bolha e entrar no campo de batalha cultural onde o senso comum é fabricado. Isso implica em ser mal compreendido, atacado, em fazer concessões táticas, em ver suas ideias distorcidas. O conforto identitário é uma fuga dessa disputa. É a escolha de administrar um gueto moralmente confortável em vez de travar a batalha suja e incerta pela cultura dominante (hegemônica).
Disputar no campo hegemônico é se deslocar exatamente e o tempo todo da esfera de conforto – é fazer o oposto da cultura de bolha, da autorreferenciação. É também não cair em simplismos em que, na nomeação de heróis e vilões, tem-se a superestimação positiva e negativa do mercado, como explorei no artigo “O mercado está cooptando o veganismo?”. Isso ignora que o mercado é um sintoma da cultura que ele não cria e sobre a qual não tem poder de mudar sem mediações (que dependem do que está fora dele, não do que surge com ele ou a partir dele), sem algum tipo de consenso cultural.
Essa superestimação também evoca suas próprias bolhas, que veem a salvação e a destruição a partir de um nicho de 1% de mercado, enquanto a hegemonia cultural especista detém 99%, além de ter o Estado, a mídia e o senso comum a seu favor. As abordagens em seus reducionismos economicistas também operam ilusões que não ajudam a evitar os problemas apresentados.
O que é tratado como “conquista”, não por acaso, também pode surgir para ofuscar as irrealizações que realmente importam. Ou seja, na ausência de importantes transformações, as “microvitórias”, para quem precisa apresentá-las como resultados para validar sua posição ou atuação, podem funcionar como uma neutralização da ideia de ineficácia.
Isso realmente funciona no movimento vegano porque muitos veganos veem a proteção à identidade como uma missão – não importando se isso não está mudando a realidade dos animais e funcionando somente como uma sinalização de atenção à identidade vegana ou mesmo de virtude. Isso é problemático porque nessa negação a atenção vegana opera com o fim, mesmo que irrefletidamente, no próprio vegano.
Além disso, as “microvitórias” que podem ser interpretadas como uma ideia de que o “movimento vegano está vencendo”, quando sabemos que ele não está, podem enfraquecer o veganismo; podem desmobilizar ativismo, conforme já abordei em outros artigos.
E não é alentador reconhecer que isso ocorreria numa etapa (o tempo presente) em que há mais animais sendo mortos do que nunca e o movimento sequer atingiu um percentual válido de participação ativa para promover ou envolver pessoas em transformações realmente significativas. Afinal, isso pode fazer desaparecer a sensação de urgência radical.
O movimento vegano gasta uma energia desproporcional nas mediações internas ao produzir validação para seus membros, mas falha em mediar uma nova mensagem para o resto da sociedade. Tudo indica que as mediações internas que devem ocorrer são exatamente aquelas que nos colocam numa direção de autocrítica e de buscar maior impacto duradouro e não transitório fora do veganismo. Para começar, podemos nos perguntar se estamos medindo pelas coisas certas aquilo que achamos adequado chamar de “sucesso” a partir do movimento vegano.
O problema é que as mediações internas são confortáveis e gratificantes no curto prazo. Elas dão a sensação de comunidade, de pertencimento e de “estar fazendo algo”. Já as mediações estruturais são difíceis, lentas e muitas vezes frustrantes. Exigem sair da zona de conforto, lidar com a rejeição e abrir mão da “pureza” em nome do avanço tático.
Mas, como nos lembra Martín-Barbero, em sua teoria das mediações, não há mudanças no núcleo da hegemonia (especista) sem mediações, sem disputar o campo em que o que fazemos é partir de uma contra-hegemonia (antiespecista). Mesmo a contra-hegemonia sempre encontra suas brechas no sistema hegemônico – que nesse caso é o próprio sistema dominante especista e que só existe porque é popularmente validado como “senso comum”. O que temos a nosso favor é que a cultura não é um bloco monolítico, é um campo de disputa onde os significados são negociados por meio de mediações.
Logo, é preciso identificar as brechas, os conflitos e os interesses dentro da cultura hegemônica e, a partir deles, construir pontes narrativas que permitam que a mensagem favorável ao antiespecismo entre em diálogo (e eventualmente dispute) com o senso comum. Uma mediação transformadora vale-se das brechas no sistema para miná-lo ou enfraquecê-lo por dentro.
É preciso priorizar mediações estruturais, não identitárias. Se o movimento priorizar as mediações que fortalecem sua própria bolha em detrimento das mediações que alteram a sociedade, ele permanecerá cultural e politicamente marginal, por mais que cresça como nicho de mercado. Focar nas “coisas positivas” internas é uma forma de permanecer no território seguro da validação mútua, evitando o campo de batalha hostil da cultura dominante.
Talvez devêssemos nos perguntar também se nosso veganismo não é frágil demais se precisamos o tempo todo de validações para continuarmos firmes no veganismo. E se isso ocorre, talvez o problema esteja exatamente em não fortalecer nossas próprias motivações para que nada nos abale com facilidade. Do contrário, teremos um movimento cada vez mais volátil e que no futuro pode encolher em vez de crescer.
“O que estamos fazendo está, de fato, reduzindo o número de animais que nascem para serem explorados e mortos?” Se a resposta for “não” ou “não sabemos”, então a estratégia está falhando, por mais “positiva” que pareça internamente.
Leia também:
O mercado está cooptando o veganismo?
Movimento vegano tem alta desistência de ativistas
Como o ativismo vegano pode encolher nos próximos anos
Será que todos os veganos querem o fim da exploração animal?
Por que há pessoas desistindo do veganismo
É um erro veganos subestimarem a abordagem ética
Por que a oferta de produtos veganos não transformará a realidade dos animais
Como o exagero de uma abordagem positiva prejudica o veganismo
O sentido do veganismo não pode ser banalizado
Resistência à autocrítica no movimento vegano é um problema
Como ver o veganismo como identidade prejudica o veganismo
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…