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Por que o movimento vegano tem menos impacto do que poderia ter?

O paradoxo pragmático: por que o veganismo cresce, mas o abate animal aumenta?

Ninguém defenderia a abordagem pragmática do veganismo se realmente não acreditasse que ela pode transformar a realidade dos animais. No entanto, é importante não confundir intenção com resultados para os animais; ou resultados para veganos com resultados para os animais. Afinal, um movimento pode crescer em visibilidade e oferta de produtos enquanto, no mesmo período, o número global de animais criados e abatidos para consumo continua a bater recordes históricos.

Os fins realmente estão justificando os meios?

Em sua premissa, a abordagem pragmática toma à sua maneira e ressignifica o consequencialismo do filósofo utilitarista Peter Singer (a ideia de que as ações devem ser julgadas por suas consequências) para justificar que as razões importam menos do que os resultados. Mas se os resultados para os animais não estão justificando a não importância das razões, então algo não está funcionando muito bem.

Afinal, se os resultados tangíveis para os animais não se materializam, como podemos perceber com base em dados nacionais do aumento anual do abate (IBGE, 2025) e consumo de animais (CONAB, 2025), a estratégia pragmática, que se coloca como “a que menos exige das pessoas numa aproximação com o que beneficia o veganismo”, corre o risco de trair seu próprio princípio fundador: o de que os fins justificam os meios. Nesse caso, quais fins estariam, de fato, sendo justificados?

Esse impasse nos leva a uma questão mais profunda. Será que o problema está na execução da estratégia ou em sua premissa fundamental? A crença de que o mercado e a mudança de comportamento individual, descolados de uma transformação cultural prévia, são capazes de gerar os resultados éticos que buscamos.

Nesse ponto, não é equivocado dizer que a abordagem pragmática acaba não oferecendo exatamente os resultados que sua premissa defende como mais eficazes do que de qualquer outra abordagem – mesmo com a aposta no envolvimento de não veganos, que corresponde à proposição de Tobias Leenaert, autor do livro “How to Create a Vegan World: A Pragmatic Approach” e uma das principais influências do veganismo pragmático. Como tenho reforçado, e isso também em relação ao movimento vegano em geral, o problema crítico não é não trazer grandes resultados hoje em relação à exploração animal, já que precisamos ser realistas, mas sequer ter um impacto mínimo que reflita uma redução sistemática – como o abate anual de animais.

O erro estratégico: acreditar que o mercado cria cultura

Nada do que problematizo é sobre antagonizar o mercado ou acreditar que ele não deve ser envolvido na mudança, até porque seria contraditório, já que o viver vegano é indissociável das relações hoje concretas e massivas de consumo. Mas temos um problema quando o mercado e o consumo são elevados de uma forma em que isso passa a ser praticado como se fossem fins em si mesmos – ignorando que o fim do vegano não é no próprio vegano, mas nos animais prejudicados por interesses humanos.

E se hoje o maior número possível de motivos, inclusive não éticos, são usados para tentar envolver o maior número possível de pessoas, isso dá mostras de que não tem funcionado, e porque não está impactando no campo cultural, que é o campo de disputa primordial. A menos que as pessoas internalizem valores em relação com uma mudança, e valores que se tornem para elas inegociáveis, não há mudança duradoura e menos ainda sinal de uma mudança massiva.

E essa é outra conclusão a que podemos chegar ancorados em estudos como hegemonia cultural (Gramsci), consumo e cidadania (Canclini) e habitus (Bourdieu). E se esse tipo de mudança não ocorre sem mediações, e nisso podemos reconhecer a importância da teoria das mediações (Martín-Barbero), ela só será bem-sucedida se houver de um lado uma internalização desses valores e de outro um reconhecimento desses valores. Sem esse trabalho de mediação, que leva à internalização, o produto será apenas um objeto estranho em um mundo cultural que não lhe dá significado. Com ele, o produto pode se tornar o símbolo material de uma nova consciência que já está em gestação.

De que adianta, por exemplo, oferecer algo vegano para alguém consumir sem que essa pessoa internalize algum valor associado a isso e que deve ser importante também para ela e não apenas para quem oferece? Mesmo que a pessoa tenha aprovado o que consumiu, se a motivação para não internalizar isso como hábito é mais forte do que a motivação de fazê-lo é porque o campo da cultura foi subestimado. E ao fazer isso, ignora-se que até mesmo gostos e prazeres surgem e são mediados culturalmente. Se o novo hábito não fizer sentido no sistema de valores e identidade da pessoa (habitus), ele será rejeitado, independentemente de seu sabor.

O campo da cultura é o campo primordial porque é a partir dele que as transformações ganham raízes, perdem a transitoriedade que tem ganhado um espaço perigoso dentro do veganismo porque constroem ficções. As mudanças que importam no veganismo são aquelas que não são temporárias, voláteis. Afinal, se temos 100 pessoas “experimentando o veganismo” por motivos frágeis, e “experimentar” já pressupõe uma fragilidade, e 95 desistem em alguns meses, isso não pode nem deve ser explorado como um sucesso. Agir assim é insistir no problema e até intensificá-lo em longo prazo, porque tende a banalizar o veganismo e levar ao preterimento de valores que dependem de mudanças culturais para que não sejam somente “uma experiência” ou “uma fase”.

Do conforto paralisante à guerra de posição: a necessidade da disputa cultural

As ficções também criam um “conforto paralisante”, porque enviam reforços positivos que não refletem a realidade e a necessidade de uma constante guerra de posição cultural, que é lenta, difícil e sem recompensas imediatas. Podem também criar uma ilusão de progresso que desmobiliza a busca por estratégias mais profundas e que desmobiliza ativismo ao impactar em outros veganos. O “conforto paralisante” é o resultado lógico de se trocar uma estratégia de transformação (que envolve conflito e paciência) por uma narrativa de sucesso (que envolve celebração e otimismo).

Gramsci chamava de “guerra de posição” justamente o trabalho lento, paciente e não glamouroso de conquistar instituições da sociedade civil para mudar o senso comum. É um trabalho que não gera manchetes, não tem métricas diárias, não existe para performar nas redes sociais, enfrenta resistência constante e exige uma visão de longo prazo. A teoria das mediações (de Martín-Barbero) nos motiva a analisar como a cultura e a hegemonia são processadas, negociadas e recriadas nas práticas de consumo e comunicação. Ela coloca as mediações como o mecanismo da guerra de posição. Logo, adotar a perspectiva das mediações e da guerra de posição significa entender que a cultura é um terreno de negociação constante.

Raízes ou superfície? Por que motivações frágeis não geram mudança duradoura

A “profundidade” do trabalho cultural (lento, difícil, de disputa de valores) não é um luxo ideológico. É o pré-requisito material para qualquer mudança massiva e sustentável. Tentar pular essa etapa, trocando valores por conveniência, é construir uma casa na areia. Pode até parecer uma casa por um tempo, mas a primeira maré (uma nova dieta da moda, uma crise econômica, um cansaço) a leva embora.

Além disso, acreditar que a narrativa de sucesso é o que atrairá pessoas é criar uma ilusão que, quando descortinada, pode afastar muitos entusiasmados que só participaram disso porque acreditaram em uma ficção, e não porque tinham uma verdadeira motivação. Substituir profundidade (de raízes, de valores, de estruturas) por imediatismo (de resultados, de gratificação, de crescimento) é algo que não se sustenta em longo prazo.

Pode-se defender que motivações frágeis podem ser fortalecidas em longo prazo, mas mesmo que isso ocorra, a própria realidade nos mostra que isso é menos frequente. Para a pessoa com motivação frágil, há sempre um “ponto de ruptura” mais claramente definido: o momento em que a conveniência acaba. Nesse ponto, como não há um valor inegociável sustentando a prática, a saída é vista como a opção mais racional: voltar ao status quo anterior, que é culturalmente mais fácil e socialmente mais fluido.

A primazia da cultura: por que valores precedem o mercado

Por outro lado, quando reconhecemos que a disputa é pela hegemonia (Gramsci), usamos as mediações (Martín-Barbero) para promover mudanças estruturais – recorrendo ao ativismo (em suas mais diversas formas – espaços físicos e digitais), educação, conversas, arte, etc. Isso leva à internalização de novos valores que alteram o habitus (Bourdieu). E o novo habitus se expressa em novas práticas (como o consumo). Essas práticas, quando coletivas, são atos de cidadania (Canclini). Esse ciclo culmina no reconhecimento social dos novos valores. Canclini nos lembra que o consumo não é um ato passivo ou puramente econômico. É um ato de significação cultural e também de exercício de cidadania. As pessoas usam bens para expressar identidade e valores. Por isso, o que precede o mercado é mais importante do que o que surge com ele.

Há uma lógica em acreditar que, se o mercado é o meio pelo qual as pessoas acessam o consumo, então, ao mudá-lo, impactamos as pessoas – lógica que Leenaert emprega em seu livro e que hoje é defendida por muitos veganos. Mas essa é uma conclusão reducionista e simplista. O mercado só pode mudar quando as pessoas mudam, porque assim ele refletirá uma nova cultura em andamento, que o precede. Inverter isso é colocar o mercado acima de uma cultura que se, não existir ou pouco existir, ele também não tem razão de oferecer correspondentes a ela – ou não correspondentes em condições de realmente participar de uma contra-hegemonia.

Essa visão trata o mercado não como um espelho ou um sintoma da cultura, mas como seu criador e determinante. Essa é uma visão economicista e mecanicista que ignora séculos de teoria social e que hoje tem sido equivocadamente explorada por uma cultura de marketing. O mercado é um campo de batalha crucial e um termômetro social, mas ele depende de uma cultura que não pode ser criada por ele nem tornada massiva sem a mediação que o antecede. Acreditar nisso é ignorar tudo que foi problematizado até agora. O fracasso não é uma questão de marketing, mas de materialização de um erro teórico e estratégico que confunde nicho com hegemonia, oferta com cultura e meios com fins.

Uma crítica estrutural: por que o incrementalismo não pode gerar a transformação necessária

Ademais, existe uma grande diferença entre comemorar que tem visto consumidores que decidiram experimentar produtos veganos, algo que também depende de uma predisposição prévia (que é cultural), uma curiosidade, e ter um impacto realmente massivo. Se o mercado fosse a via mais eficiente para reduzir o sofrimento, os resultados já deveriam ser visíveis pelo menos numa mínima queda significativa da produção animal ou em evitar que o consumo de produtos de origem animal continuasse crescendo. Como não são, a premissa é empiricamente falha no contexto de uma mudança de habitus profunda. Desonesto também seria atribuir à sua abordagem uma mudança volátil sem relação com o movimento vegano – como aquelas que decorrem de inflações, crises, etc. Não há vitória em mudanças temporárias baseadas em problemas econômicos.

A Premissa do “incrementalismo eficaz”, a ideia de que pequenos passos (cada produto, cada flexitariano) se acumulam linearmente até a transformação, também é refutada pelos dados. O sistema animal é dinâmico e expansivo; ganhos marginais em um nicho são anulados e superados pela expansão geral. A crença de que evitar a mensagem ética “dura” atrai mais gente e, no final, ajuda mais animais, também não tem se sustentado no resultado final. Pode atrair mais consumidores para um nicho, mas não gera a mudança de valores necessária para erodir a demanda geral por produtos animais.

Acreditar que sim é se contentar com “consequências” secundárias e simbólicas (um mercado em crescimento) e ignorar a consequência primordial (a escala do sofrimento). Se o que importa são as consequências, ainda assim seria preciso um repensar radical da estratégia. Isso demandaria canalizar energia para ações cuja causalidade direta na redução do número de animais explorados seja mais clara e imediata, mesmo que essas ações sejam menos populares, menos “positivas” e menos comercializáveis.

Se o critério moral que ancora a abordagem pragmática é o impacto para os animais, então toda estratégia deve ser julgada por sua efetividade material em produzir esse resultado. A métrica não deve ser a intenção, a popularidade da mensagem ou o crescimento de um nicho de consumo, e sim se menos animais estão sofrendo e morrendo – o que, como exposto, não está ocorrendo.

A autorrefutação do pragmatismo

Podemos dizer que os motivos para os animais não importam, e sim o que é concreto sobre não prejudicá-los, mas se esses mesmos motivos tornam transitório alguém deixar de participar da exploração animal por meio do consumo, isso acaba sim importando para os animais como efeito de uma irrealização.

Há uma autorrefutação quando os motivos determinam a durabilidade dos resultados. Se o motivo frágil é o que torna a mudança transitória, então, na prática, o motivo se torna a variável decisiva para a concretude do resultado. Ignorar os motivos em nome de um “pragmatismo” acaba, paradoxalmente, minando o próprio pragmatismo, pois garante resultados superficiais e revertíveis.

É compreensível acreditarmos que, com base em uma leitura do mundo, falar com alguém sobre os animais pode não levar a uma consideração, então é mais fácil optar por outros argumentos “não confrontativos”. Mas devemos nos perguntar se esses argumentos realmente têm um potencial de se converter em algo duradouro e não transitório, e se em longo prazo eles ajudam a solidificar os objetivos do veganismo. Ou talvez devêssemos nos perguntar também se não subestimamos a motivação ética quando achamos que não há formas plurais de abordá-la.

A ética é central e deve ser mediada

Para pensar sobre isso, devemos considerar primeiro que o movimento vegano é pequeno e dentro desse movimento há um número pequeno de pessoas fazendo ativismo, conforme abordei em outros artigos – e um número significativo dessas pessoas também pode optar por não usar a abordagem ética. Enfim, para defender a ineficácia da abordagem ética seria preciso provar que a maioria já teve algum contato com conversas e discussões sérias sobre veganismo. O movimento vegano precisa do maior número possível de veganos engajados em participarem dessa transformação – indo além de viver o veganismo passivamente. Se queremos grandes transformações, isso não ocorrerá com uma pequena proporção de veganos assumindo essa responsabilidade. Ignorar isso é um grande erro também estratégico.

Podemos partir também para outra segunda consideração – acreditar que “a ética não funciona” é uma consequência comum de se pensá-la de forma única. Falar em questão ética como se fosse monolítica também é um erro. A motivação ética pode e deve ser mediada de inúmeras formas. Martín-Barbero e a teoria das mediações nos ensinam isso. A ética não precisa ser vista como “o sermão” durante o jantar. Ela pode ser acessada por meio da estratégia da “narrativa e empatia” – contar histórias individuais de animais que gerem identificação emocional ou racional (depende de com quem falamos) – o que pode ocorrer também por meio de documentários, filmes, literatura e outros tipos de arte.

Podemos explorar a “coerência com valores existentes” – mostrar como o especismo contradiz valores que a pessoa já possui (justiça, repúdio à crueldade, compaixão), criando um conflito cognitivo produtivo. Podemos explorar também “questões, não respostas”: em vez de fazer afirmações, fazemos perguntas, favorecendo uma relação horizontal. Isso convida à reflexão, não à defesa. Mostrar como se vive o veganismo dentro de um contexto ético explícito também pode ser uma forma de aproximação. Esses são apenas alguns exemplos. Há muitas possibilidades e que veganos podem explorar de acordo com suas potencialidades. A subestimação, portanto, está em achar que a ética só tem uma forma de comunicação (a diretiva), quando na verdade ela é um universo de possibilidades narrativas e relacionais.

Portanto, a saída não é abandonar a ética por argumentos fáceis que não levam ao objetivo final. É aprender a mediar a ética de forma mais inteligente, paciente e plural. A pergunta estratégica deixa de ser “devo parar de falar de ética e falar de saúde?” e passa a ser “como posso mediar a questão ética de uma forma que esta pessoa, neste contexto, possa se engajar e refletir?”

A ética não foi amplamente testada e rejeitada

Há uma suposição de que a mensagem ética foi amplamente testada e rejeitada pela sociedade. Então acredita-se, mesmo no meio vegano, que devemos mudar a mensagem (para saúde, meio ambiente, etc). O problema está no fato de que a suposição não é verdadeira. Além disso, há pesquisas, como a da Faunalytics, que sustentam que motivações não éticas resultam em mais desistências.

A maioria das pessoas nunca teve uma conversa profunda e respeitosa sobre a ética vegana. E um reflexo disso é o fato de haver uma ideia distorcida sobre o que é ser vegano. Muitas pessoas também nunca foram expostas a uma narrativa cultural poderosa (um filme, um livro, etc.) que coloque o especismo no centro da questão de forma convincente. A maioria também não foi desafiada de forma sistemática em suas crenças sobre o uso de animais; seja na escola, na mídia ou no debate público.

Muitas pessoas foram, no máximo, expostas a estereótipos ou a argumentos éticos superficiais em debates polarizados. Isso não é um “teste” da eficácia da ética; é a exposição a uma caricatura da ética. A existência de uma “visão distorcida do veganismo” na sociedade é a prova empírica de que a mensagem ética central não foi transmitida e mediada com eficácia. É a prova de que o campo cultural foi ocupado por estereótipos, preconceitos e informações incompletas, não por uma compreensão séria do plural argumento antiespecista. Se o veganismo ético tivesse sido objeto de uma “guerra de posição” cultural bem-sucedida, a visão pública dominante seria diferente. O fato de as distorções persistirem mostra que a batalha decisiva ainda não foi travada, muito menos vencida.

Quando a única exposição que a pessoa tem é com um vegano que comunica a ética de forma agressiva ou desconectada de sua realidade, a mensagem se perde, mas a distorção fica. A mediação falhou. Publicações de grande alcance que debocham de veganos, artigos que focam em supostos “perigos” da “dieta” e a associação do veganismo com um estilo de vida exclusivista – tudo isso pode influenciar a visão pública. Para combater a distorção, não basta ser vegano; é preciso ser um mediador cultural competente. Isso significa saber traduzir o valor ético central para linguagens e contextos que façam sentido para o outro.

Portanto, a existência da visão distorcida não é um sinal de que “a ética não funciona”. É um sinal de que o trabalho de mediação cultural mal começou; que há um enorme espaço vazio no imaginário popular que pode ser preenchido por uma narrativa ética bem contada; que cada vegano que consegue ter uma conversa respeitosa e clara está, na verdade, realizando um ato de “guerra de posição” micro. Cada vez que um estereótipo é desfeito por uma interação humana positiva, um pequeno território da hegemonia cultural é conquistado. A distorção só persiste porque a mediação competente e massiva ainda é a exceção, não a regra.

O problema não é a mensagem ética

O problema não é a mensagem (a ética); o problema é a grande ausência de mediações eficazes dessa mensagem no campo cultural. Culpar a mensagem pela distorção é como culpar um livro complexo por ser mal interpretado por quem só leu a contracapa em uma língua que não domina. A solução não é trocar o livro; é melhorar a tradução e a pedagogia em torno dele.

Devemos pensar em como a sociedade pode ser massivamente exposta a uma mediação cultural competente e persistente da ética antiespecista. Esta é uma guerra de posição que mal começou. A indústria animal e a cultura especista têm séculos de vantagem na construção de sua hegemonia. Dizer que a ferramenta principal do veganismo (o argumento ético) “não funciona” nesse estágio é como desistir de uma maratona nos primeiros 100 metros porque você ainda não está na frente.

A conclusão estratégica sensata não é abandonar a ferramenta mais poderosa (o argumento ético que ataca a raiz do problema), mas, reforço, aprimorar sua mediação. É preciso aprender a comunicar a ética de forma mais sábia, empática e conectada com as linguagens culturais existentes. Para ampliar radicalmente seu alcance, é necessário: investir na “guerra de posição” para colocar a questão ética no debate público, na educação, na cultura pop; e, não menos importante, ter paciência histórica. É necessário entender que se levou séculos para a hegemonia especista se construir, sua desconstrução não ocorrerá em pouco tempo, e menos ainda terá condições de ser desconstruída se tratamos, paradoxalmente, o argumento ético como um obstáculo.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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